Mulheres & Venenos: as criadoras de anjos de Uberaba

Era uma vez um grupo de mulheres que se uniu em um propósito medonho: envenenamento em massa de pessoas. A história começa com senhoras sofridas que decidem de uma...

Era uma vez um grupo de mulheres que se uniu em um propósito medonho: envenenamento em massa de pessoas. A história começa com senhoras sofridas que decidem de uma vez por todas acabar com suas dores, ou seja, maridos cruéis e violentos. Elas, porém, tomam gosto e a coisa sai completamente do controle. A morte se torna banal e, assustadoramente dessensibilizadas, essas assassinas são capazes de adocicar uma xícara de café com estricnina e oferecer a uma amiga de longa data, apenas pelo prazer de vê-la agonizar enquanto seu estômago é corroído.

Enganam-se os que acham que a cidade húngara de Nagyrév e sua horda de assassinas envenenadoras foi um caso único. Na verdade, esta era uma prática tão disseminada na Europa de antigamente que um pesquisador a chamou de “Sindicatos de matadoras de maridos”. Há centenas dessas histórias. Mas Nagyrév se tornou a mais famosa. E se a Europa teve Nagyrév, nós tivemos Uberaba.

AGRADINHOS


Entre 1958 e 1962, se uma mulher quisesse resolver um problema em Uberaba, bastava fazer um “agradinho” e oferecer ao alvo infeliz. O tal agrado nada mais era do que bolos e doces recheados de arsênico e estricnina. Quem “inventou” a receita foi Francisca Coelho, moradora do bairro Abadia. Cansada do marido mau, ela misturou o raticida trigo roxo no feijão e o homem pereceu rapidamente. O mesmo destino teve o próximo companheiro. Não demorou e ela ficou de olho em um “moreno escuro” bonitão. Mas a vizinha também queria o varão, então Francisca enviou um agrado à mulher: doce de mamão maduro. A família inteira da vizinha caiu doente e, uma das filhas, de 18 anos, veio a óbito. “Esses foram os meus agradinhos. Os outros são da Mariinha e das outras,” disse Francisca à polícia.

Tendo matado sem levantar suspeitas, Francisca começou a sugerir sua solução às mulheres do bairro. Três outras foram presas e atrás delas havia um rastro de mortes estranhas e misteriosas.

Anos depois, ancorado por uma investigação falha, um juiz rejeitou a denúncia do MP e as criadoras de anjos de Uberaba saíram impunes, desaparecendo em seguida na história, assim como suas “colegas” europeias.

Referências: [1] As envenenadoras de Uberaba. O Cruzeiro. 6 jun. 1964. Págs. 86-89; [2] De agrado também se morre. Realidade. Ed.5. Ago. 1966. Págs. 122-128; [3] Chegou ao fim o volumoso processo do caso dos “agradinhos”. Lavoura e Comércio. 10 jun. 1968. Pág. 1.

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Por:


Daniel Cruz
Texto

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
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