Mulheres & Venenos: a epidemia de assassinas na era vitoriana

Esqueçam os bailes de gala e a riqueza sem fim da realeza, a era vitoriana foi um período de miséria extrema, violência e assassinatos. Crianças eram ensinadas por adultos...

Esqueçam os bailes de gala e a riqueza sem fim da realeza, a era vitoriana foi um período de miséria extrema, violência e assassinatos. Crianças eram ensinadas por adultos desesperados na arte da mendicância e as mulheres, de todas as idades, vendiam seus corpos nas ruas imundas por centavos, por um pedaço de bolo ou para o pernoite. E por falar em mulheres, uma imagem representativa dessa época é a da temível envenenadora.

Na Inglaterra do século 19, o envenenamento era um crime comum e midiatizado. Um dos casos mais comentados foi o de Christiana Edmunds em 1871. Usando estricnina, Edmunds envenenou chocolates e outros doces como parte de um plano para atingir a esposa de seu interesse amoroso. No julgamento, foi notado que multidões de mulheres bem vestidas se sentaram na galeria do tribunal. Tamanho interesse fez surgir uma suspeita: as damas estariam interessadas em ouvir e aprender como Edmunds conduziu seu crime, reunindo-se mais tarde em grupos para compartilhar as receitas e táticas que ela usava?

Em 1850, durante o julgamento de Ann Merritt, que matou o marido com arsênico, o juiz comentou sobre a “estranha e horrível frequência” com que esse tipo de crime era cometido. Um ano depois, em resposta à epidemia das envenenadoras, as autoridades britânicas publicaram o Arsenic Regulation Act, uma lei que regulava a venda de arsênico. Nada mudou e, em 1856, o juiz do caso Betsy M’Mullan, que também matou o marido, argumentou que as mulheres deviam ser banidas de comprar substâncias perigosas.

De fato, qualquer elemento podia se tornar fatal. Em 1886, clorofórmio foi encontrado no estômago de Thomas Bartlett. Sua esposa Adelaide foi acusada de envenená-lo, mas foi absolvida: a acusação não conseguiu provar sua culpa.

A mesma sorte não teve Mary Britland. A insuspeita garçonete foi enforcada após matar o marido, a filha e a esposa do vizinho, que era seu amante, com veneno para ratos. Outras envenenadoras em série, como Amelia Winters e Mary Cotton, tiveram “carreiras” longínquas, uma prova de que a era vitoriana foi tudo, menos a pompa e o sucesso enraizado no imaginário popular.

Referências: [1] The case of Ann Merritt now awaiting execution. Daily News. 22 mar. 1850. Pág. 3; [2] Charge of poisoning by antimony. The Derby Mercury. 27 ago. 1856. Pág. 2; [3] The Brighton Poisoning Case. The Guardian. 9 set. 1871. Pág. 7; [4] The Watson and Edmund Cases. The Leeds Mercury. 27 jan. 1872. Pág. 12; [5] The Ashton Poisoning Case. The Manchester Courier and Lancashire General Advertiser. 24 jul. 1886. Pág. 3; [6] Old Bailey Proceedings Online April 1886. Trial of ADELAIDE BARTLETT (30), GEORGE DYSON (27) (t18860405-466); [7] Morton, Alison. The Female Crime: Gender, Class and Female Criminality in Victorian Representations of Poisoning. Midlands Historical Review, Vol. 5. 2021.

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Por:


Daniel Cruz
Texto

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
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