
Uma série de assassinatos brutais de jovens garotas que assolou os arredores de Moscou entre julho e novembro de 2002 permaneceu sem solução por mais de duas décadas. O autor dos crimes geralmente atacava suas vítimas à noite, golpeando-as na cabeça com um objeto pesado e, em seguida, estuprando-as e estrangulando-as. Certa vez, ele matou três garotas em um único dia — uma em um parque florestal de Podolsk e duas no Parque Pushkino, no centro de Moscou.
Sua décima vítima foi a estudante peruana Agnes Carolina Santisteban, de 23 anos, sobrinha de um assessor presidencial do Peru e que havia se mudado para a Rússia para estudar balé. A aparência incomum de Agnes chamou a atenção do maníaco e seu corpo foi encontrado perto de um alojamento estudantil em Khimki. O assassinato repercutiu na imprensa e os crimes em Moscou cessaram.
De acordo com as autoridades russas, a dificuldade em solucionar o caso deveu-se à natureza prolongada dos crimes, cometidos em circunstâncias obscuras, e aos seus múltiplos episódios. Apesar disso, o trabalho prosseguiu por muitos anos. Em julho de 2024, o arquivo do caso foi reexaminado por uma equipe de investigadores e peritos forenses de alto nível de Moscou e membros do governo, que estabeleceram a “natureza serial” dos homicídios. Um residente de Novosibirsk, cidade distante há mais de três mil quilômetros de Moscou, chamado Alexei Gaskov, chamou a atenção dos detetives.
O Maníaco
Uma figura excêntrica e um tanto suspeita, Gaskov nasceu em uma família abastada na cidade de Berdsk, região de Novosibirsk, em 1975. Desde criança, demonstrou interesse por teatro e era o centro das atenções entre seus colegas. Após concluir os estudos, cumpriu o serviço militar e, depois da dispensa, realizando um sonho antigo, matriculou-se em uma escola de teatro. No entanto, logo foi expulso por embriaguez e faltas injustificadas. Em 2002, Gaskov mudou-se para Moscou, onde ingressou no Instituto Estatal de Cinema de Moscou, mas foi expulso após seis meses por, novamente, aparecer bêbado às aulas. Em sua defesa, alegou que o alcoolismo era necessário para ele incorporar os personagens.
Antes de se mudar para a capital russa, quando ainda morava em Novosibirsk, Gaskov fez uma amizade para lá de sombria.
Por muitos anos, ele foi amigo de Mikhail Yudin, o “Maníaco das Calças Jeans”. Entre 1999 e 2002, Yudin assassinou cinco mulheres de cabelos pretos e que usavam calças jeans justas.
Durante a investigação dos crimes do Maníaco das Calças Jeans, investigadores encontraram impressões digitais de Gaskov no apartamento de Yudin e ele foi preso sob suspeita de cometer os crimes. No interrogatório, Gaskov incorporou o “personagem maníaco” e confessou todos os crimes. Os detetives, porém, concluíram que suas confissões eram falsas e evidências forenses apontaram para o verdadeiro assassino: Mikhail Yudin. Em 2004, Yudin recebeu uma sentença de prisão perpétua e ainda hoje cumpre sua pena na temida Coruja Polar, penitenciária que abriga os piores criminosos russos, incluindo Alexander Pitchuchkin.
“Posso descrevê-lo em uma palavra: palhaço. Durante os interrogatórios, ele começou a exibir suas habilidades de ator. Ele entrou no personagem, por assim dizer. E alguns até acreditaram nele. Colegas disseram: ‘Bem, talvez ele seja mesmo o maníaco de Berdsk’, mas eu não acreditei. Quando fomos para o experimento investigativo, ele estava perdido. Não sabia para onde ir, não sabia de nada. Ficou lá parado, piscando, pensando que o estavam levando para a cena do crime.”
– Oleg Akrayntsev, investigador

Dois maníacos sexuais de Novosibirsk: Alexei Gaskov e Mikhail Yudin eram amigos e bebiam juntos. Ambos foram condenados por matar mulheres.
A Prisão
É altamente suspeito que Gaskov tenha se mudado para Moscou logo após seu amigo Yudin ter sido identificado como um assassino em série. O fato é que, após chegar a Moscou, mulheres começaram a ser assassinadas. Gaskov, porém, seguiu sua matança sem ser incomodado, sendo preso apenas por embriaguez e desordem. Ele voltou para Novosibirsk após o homicídio da estudante peruana e permaneceu longe dos radares investigativos até julho de 2024, quando uma nova equipe de investigadores suspeitou que ele pudesse estar envolvido na série de homicídios não resolvidos de Moscou, que remontavam há vinte anos. Interrogado, Gaskov confessou. Desta vez, ele foi mais direto no seu depoimento e deu um relato detalhado de cada crime. Testes de DNA confirmaram que o material biológico encontrado nos corpos pertencia a ele. Gaskov foi ligado aos assassinatos de dez mulheres, mas confessou muito mais.
A investigação, encerrada, foi remetida à justiça russa e Alexei Gaskov poderá receber a prisão perpétua por seus crimes. Quem sabe, após mais de vinte anos, ele finalmente fará companhia a seu velho amigo Mikhail Yudin na Coruja Polar.
Com informações: Kommersant.ru, Gazeta-n1.ru.





