
“Ninguém pode prever o comportamento de uma jovem candidata que ficou a apenas três pontos de entrar na universidade”, concluiu um artigo intitulado Perdidos nos Corredores da Universidade?, publicado no jornal Svobodny Kursem em agosto de 2000. O artigo narrava a história de três garotas que desapareceram sem deixar rastro após visitarem a Universidade Técnica Estadual de Altai (também conhecida como Politécnica), na República de Altai, sul da Rússia, com poucos dias de diferença. A polícia acreditava que “os três desaparecimentos não tinham ligação”. Fotos das desaparecidas foram anexadas à matéria.

Artigo sobre o desaparecimento das candidatas à Universidade Técnica Estadual de Altai, Yulia Tikhtiekova, Olga Shmakova e Liliana Voznyuk, publicado no jornal Svobodny Kursem.
A primeira desaparecida, uma loira de cabelo curto, se chamava Yulia Tikhtiekova, de 16 anos, residente de Barnaul. Na manhã de 29 de junho, seu pai a deixou no prédio principal da universidade — ela corria para chegar a tempo e entregar na secretaria seus documentos. Tikhtiekova, vestida com calça preta, camiseta branca e colete azul-claro, entrou no prédio e nunca mais foi vista.
Um mês depois, em 28 de julho, Liliana Voznyuk, de 16 anos, desapareceu em circunstâncias semelhantes enquanto ia para uma consulta na universidade, e três dias depois, em 1º de agosto, Olga Shmakova, de 17 anos, sumiu.
“A jovem foi à universidade para se informar sobre o resultado de sua admissão, mas descobriu que faltavam apenas três pontos para atingir a pontuação necessária”, escreveu o Svobodny Kursem. “A mãe de Olga a esperava em casa, mas como a jovem não apareceu, ficou preocupada. Sua filha nunca ficou na rua até tarde e era, em geral, caseira”.
No dia seguinte ao desaparecimento de Olga, a universidade realizou a cerimônia de iniciação dos alunos do primeiro ano. Ksenia Kirgizova, de 17 anos, compareceu ao auditório da universidade com seus pais. Ela estava chateada por não ter se qualificado para a gratuidade do ensino, mas não havia perdido a esperança de conseguir a transferência para o programa de bolsas do Estado.
Duas semanas após sua iniciação como caloura, em 15 de agosto, Ksenia desapareceu sem deixar rastro. Uma colega de classe relatou tê-la visto pela última vez na “frigideira” — apelido dado pelos estudantes à pequena praça em frente à universidade. Mais tarde, descobriu-se que, uma semana antes do desaparecimento de Kirgizova, em 8 de agosto, Angela Burdakova, de 17 anos, também havia sumido. Ela foi vista pela última vez na secretaria com um documento para obter um desconto na mensalidade.

“Skovorodka” é uma pracinha em frente à Universidade Técnica Estadual de Altai.
No início de setembro, adolescentes que passavam em uma motocicleta por uma estrada rural do distrito de Kalmansky, na fronteira com Barnaul, encontraram roupas rasgadas e pertences de Ksenia Kirgizova. O caderno estava pendurado em um galho de árvore a uns dezoito metros do chão. Os adolescentes abriram, leram e entenderam do que se tratava — a essa altura, já havia muita cobertura sobre os desaparecimentos na televisão local — e comunicaram à polícia.
Em 19 de outubro, a um programa da NTV, o empresário Vladimir Kirgizov, pai de Ksenia, acusou a administração da universidade de inação.
“Se os pais tivessem sido reunidos ou se ao menos tivessem sido divulgadas informações [sobre as candidatas desaparecidas], nossa filha não teria sido levada [para a universidade] nos dias 14 ou 13. É improvável que os Burdakov tivessem enviado a filha [para a escola] desacompanhada. Duas meninas poderiam ter sido salvas com apenas um anúncio, mas ninguém queria estragar a celebração!”
Tanto Vladimir Kirgizov quanto Tatyana Nisterchuk, mãe de Angela Burdakova, que também compareceu ao estúdio da NTV, afirmaram que cartazes com os retratos das cinco meninas desaparecidas só apareceram nas ruas de Barnaul no final de agosto e que a polícia trabalhou “em câmera lenta”. Os próprios pais das meninas desaparecidas iniciaram investigações por conta própria, afixando cartazes de busca e entrevistando estudantes universitários.
“Depois que minha filha desapareceu, eles nem sequer quiseram registrar um boletim de ocorrência”, disse o pai de Olga Shmakova, ao estúdio por videoconferência. “Depois que insisti com o chefe de polícia, eles registraram o boletim.”
Criação da Força-Tarefa
No final do verão russo de 2000, uma equipe de busca — criada após apelos públicos de Vladimir Kirgizov — composta por 100 agentes do Ministério do Interior e da promotoria regional foi formada.
“Naquela época, eu trabalhava com roubos há dez anos. Então, o pai de Kirgizova apareceu. Ele era muito rico e fez um escândalo. Formaram o grupo da noite para o dia. Os meus superiores não gostavam de mim e me colocaram na liderança do grupo como uma forma de punição. Como se formavam grupos [na época]? Ligavam para as delegacias distritais e diziam: ‘Olá, podem me arranjar duas pessoas?’ E quem é que a delegacia distrital fornecia? Todos aqueles de quem não gostavam”.
– Igor Bespalov, ex-investigador sênior do Departamento de Investigação Criminal de Krai de Altai
Ao mesmo tempo, polícias de Moscou e Novosibirsk seu juntaram aos investigadores de Barnaul.
“Bem, então [a polícia de Barnaul] ficou toda atrapalhada e começou a abrir [processos criminais] contra todos os desaparecidos. Eles abriram mais de duzentos casos. Quando analisamos tudo — uau! Descobrimos que existiam muitas pessoas desaparecidas!”
– Igor Bespalov
De fato, houve um número significativo de assassinatos e desaparecimentos de mulheres jovens na região durante esses anos. O jornal Komsomolskaya Pravda noticiou o fato em junho de 2001: “Quando a comoção começou no ano passado, arquivos sobre assassinatos não resolvidos dos anos anteriores foram abertos. Descobriu-se que não se tratava de um incidente isolado, mas de um padrão: corpos em decomposição de jovens candidatas a universidades, a maioria de fora da cidade, vinham sendo encontrados no território de Altai há pelo menos três anos, mas não havia nenhuma ligação entre os casos”.
Ao consultar os arquivos, descobriu-se que, um ano antes, Choduraa Oorzhak, de 21 anos, residente em Tuva e que também saiu de sua cidade natal para estudar na Politécnica, desapareceu em circunstâncias semelhantes. Em 28 de junho de 1999, ela saiu de seu dormitório para entregar seus documentos à universidade e, em seguida, sumiu.
Svetlana Filipchenko, de 27 anos, natural de Novosibirsk, desapareceu sem deixar rastro em julho de 1999, enquanto procurava emprego em Barnaul.
No início de setembro daquele ano, a polícia encontrou o corpo de outra mulher assassinada: Natalya Berdysheva, de 25 anos, de Zarinsk, cidade vizinha. Ela foi à cidade para se candidatar a um emprego numa escola técnica cooperativa; segundo amigos, foi vista pela última vez em 9 de agosto.
Ao investigar o caso, jornalistas investigativos se viram em volta de outros crimes. Eles descobriram, por exemplo, que, por um longo período, candidatas à Universidade Técnica Estadual de Altai e a outras universidades em Barnaul vinham recebendo ofertas de prostituição de diversos homens. “Compilamos 71 perfis de indivíduos que oferecem trabalhos às candidatas dentro dos muros das universidades de Barnaul”, escreveu o Komsomolskaya Pravda.

Imagem do caso das garotas assassinadas da Universidade Técnica Estadual de Altai.
Entre dezenas de outros casos de mulheres desaparecidas, dois se destacaram: Valentina Shakirova, de 43 anos, e Nina Mikhailyukova, de 53 (as outras mulheres tinham, em geral, menos de 30 anos).
Shakirova e Mikhailyukova eram professoras em escolas rurais; ambas foram a Barnaul para apoiar as filhas durante os exames e levaram dinheiro consigo. Elas desapareceram com poucos dias de diferença, em julho de 2000. A filha de Valentina, Ekaterina Shakirova, contou que a família chegou a consultar médiuns na busca pela mãe: “Procuramos minha mãe por conta própria, ficamos em pânico. Chegamos a contatar hospitais psiquiátricos — talvez ela tivesse desmaiado e perdido a memória. Entramos em contato com os parentes da outra mulher desaparecida [Mikhailyukova], mas não conseguimos descobrir absolutamente nada”.
Os Primeiros Suspeitos
Os restos mortais de Ksenia Kirgizova foram descobertos em uma faixa florestal entre os vilarejos de Buranovo e Shadrino, no início de outubro de 2000. Uma semana depois, outro corpo foi encontrado na mesma área, a quarenta quilômetros de Barnaul. Um exame determinou que os restos mortais pertenciam a Angela Burdakova.
Meses depois, fragmentos dos corpos de outras duas garotas desaparecidas foram encontrados no distrito de Kalmansky: a família de Olga Shmakova a identificou por sua trança, e os pais de Yulia Tikhtiekova reconheceram seus pertences. A cabeça de Liliana Voznyuk foi encontrada meses depois.
Com a descoberta dos restos mortais, o pânico tomou conta da cidade e as autoridades foram pressionadas além do limite.
“Trinta e cinco mil pessoas foram entrevistadas, incluindo todo o corpo docente e administrativo da Universidade Técnica Estadual de Altai; os álibis dos proprietários de carros vistos em um estacionamento próximo foram verificados; cerca de cem perícias forenses foram realizadas; e todos os casos semelhantes de anos anteriores foram revisados”, escreveu o Komsomolskaya Pravda sobre a investigação. “Como parte do caso das universitárias desaparecidas, outros trinta e seis crimes foram solucionados: suborno, fraude, assassinato, estupro e roubo”.
Casos de assédio a estudantes também foram descobertos e vários professores foram demitidos da universidade após uma investigação, “incluindo um professor respeitado que tinha o hábito de acariciar os joelhos das meninas em troca de um autógrafo em seus diários […] Muitas relataram que professores extorquiam dinheiro em troca de notas e que outros demonstravam atenção excessiva às meninas”, revelou, em um programa de TV, o investigador Vladimir Anufriev.

Fotos tiradas por peritos mostram imagens relacionadas a Ksenia Kirgizova.
Durante a investigação, uma estudante chamada Sumanosova contou aos detetives que um homem na casa dos quarenta anos a abordou e ofereceu ajuda com os trâmites universitários. Ele apresentou-se como chefe do departamento de economia.
Segundo Sumanosova, ela desconfiou quando viu o homem no mercado local vendendo sapatos. Ao investigar a denúncia, detetives chegaram até Alexander Anisimov, de 45 anos e pai de três filhos. Como noticiado na época, outras onze estudantes confirmaram posteriormente à polícia que Anisimov lhes ofereceu ajuda para se candidatarem à Universidade Técnica Estadual de Altai.
Anisimov negou qualquer envolvimento nos sequestros, muito menos nos assassinatos. Sua esposa confirmou que ele estava com a família ou trabalhando nos dias em que as meninas desapareceram. Mesmo assim, em 27 de outubro de 2000, Anisimov foi detido. Dois machados, uma velha espingarda de cano serrado, facas e algemas foram encontrados em sua garagem.
Enviado para um centro de prisão preventiva, Anisimov tentou se enforcar na cela. Provocado de todas as maneiras e embriagado pelos policiais, o suspeito se recusou a falar, mas, dias depois, de repente, anunciou o desejo de confessar.
Em 1º de novembro, Anisimov declarou ter assassinado as cinco universitárias e o motivo dos crimes era dinheiro. Ele escreveu uma breve confissão e foi levado para reconstituir um dos crimes — um prédio residencial onde, segundo Anisimov, morava o comprador do brinco de ouro que roubou de uma vítima. Juntamente com ele, uma comitiva de investigadores, interrogadores, guardas e, até, jornalistas o acompanhou, ansiosos por detalhes de seu modus operandi.
Durante o trajeto, Alexander Anisimov, com um olhar vago, mas direto, observava os prédios passando pela janela de seu carro. A comitiva parou em um deles, os jornalistas permaneceram embaixo e o grupo com os investigadores entrou no prédio. Minutos depois, o suspeito jazia morto na calçada. De acordo com a versão oficial, Anisimov foi desalgemado no oitavo andar e, em um momento de descuido dos policiais, correu até o andar de cima e pulou por uma janela.
Mais tarde, descobriu-se que apenas duas das meninas desaparecidas usavam brincos de ouro. O verdadeiro assassino não retirou as joias das vítimas e elas foram encontradas junto aos seus restos mortais. Não foi encontrado um único fato concreto que apontasse para a culpa de Anisimov. A única prova de sua culpa era uma breve confissão, dada sob pressão e abalo psicológico.
Coincidência ou não, os desaparecimentos de universitárias cessaram no final de 2000. Após a morte de Anisimov, a força-tarefa especial encarregada de encontrar o maníaco foi dissolvida e a maioria dos investigadores retornou às suas funções anteriores. O caso estagnou e acabou por ser arquivado.
A dica do telefone
Voltando a outubro de 2000, quando o corpo de Ksenia Kirgizova foi encontrado em uma área florestal perto do vilarejo de Buranovo, um homem baixo e franzino foi visto entre os curiosos testemunhando a remoção dos restos mortais. Um policial que o conhecia chegou a pedir-lhe que assinasse um relatório pericial como testemunha.
Seu nome era Vitaly Manishin, um veterinário de 29 anos do vilarejo vizinho de Shadrino. Seu nome apareceu no caso do maníaco de Barnaul não apenas como testemunha de uma perícia — no mesmo ano, uma mulher ligou para a polícia e disse rapidamente antes de desligar o telefone: “O sequestrador das meninas é Vitaly Manishin, do distrito de Kalmansky”. Quem era ela e como conhecia o veterinário é um mistério. Apesar da acusação, o envolvimento de Manishin nos assassinatos não foi investigado, pois, segundo a polícia, sua linha telefônica recebia centenas de ligações e não era possível averiguar tudo.
Muitos anos antes, porém, Manishin já havia tido a atenção da polícia. Em 1989, Lyudmila Obidina, de 17 anos, desapareceu de seu vilarejo natal após sair para visitar a avó. O corpo foi encontrado um ano após o crime, em uma área florestal próxima de onde morava. A polícia interrogou os moradores e descobriu que, no dia do desaparecimento, Obidina havia se encontrado com um grupo de jovens da região, incluindo Manishin, de 19 anos. Os jovens disseram que convidaram Lyudmila para um piquenique, mas logo decidiram ir buscar bebidas alcoólicas e a deixaram sozinha com Manishin. O rapaz foi a última pessoa a ver Obidina e, segundo sua confissão, esperaram juntos pelos amigos, mas depois se cansaram e foram para casa. A polícia não suspeitou de Manishin — ele não tinha o perfil esperado de um monstro sexual assassino; era franzino, jovem, com o rosto de bebê — e o caso foi arquivado.
Anos depois, Manishin formou-se na Universidade Agrária de Altai, casou-se e teve duas filhas. No entanto, o casal discutia constantemente e logo se divorciou — sua esposa e filhas mudaram-se para Barnaul, e as filhas pararam de se comunicar com o pai. Manishin tornou-se diretor de uma fazenda estatal e, em seguida, funcionário público: primeiro, chefiou a administração do conselho do vilarejo de Shadrino, depois assumiu a chefia da administração do distrito de Kalmansky (mas foi posteriormente rebaixado a vice-prefeito). Em 2001, Manishin conheceu a contadora Tatyana Lopina, viúva e mãe de dois filhos. O casal passou a morar junto e iniciou uma vida no campo: produziam leite e criavam gado e cavalos.

O vilarejo de Shadrino. Com menos de mil habitantes, o vilarejo teve como um de seus prefeitos o veterinário Vitaly Manishin.
Em conversas com jornalistas, os moradores da vila descreveram Manishin como “um homem comum”, mas não souberam fornecer detalhes sobre sua vida. “Ele amava os animais, era amigável, mas é difícil dizer algo específico sobre ele. Ele vivia tranquilamente e tentava não atrair atenção desnecessária”. Embora Manishin tenha administrado o distrito por muito tempo, “não havia nada de extraordinário em seu trabalho”.
Alguns moradores de Shadrino o evitavam: “Ele aparecia na loja de vez em quando”, disse uma ex-vendedora da mercearia da vila. “Havia algo repulsivo nele. Talvez ele só agisse assim comigo, não sei. Ele começava a escolher, você oferecia algo e ele imediatamente resmungava ‘não’, e pronto. E ele sempre se comportava de forma cautelosa: entrava silenciosamente, ficava de lado se houvesse pessoas por perto, dava espaço às pessoas, às crianças, e simplesmente ficava lá esperando. Na época, eu nem sabia que ele era o vice-prefeito do distrito. Cheguei a me perguntar se ele havia sofrido alguma tragédia ou se estava passando por dificuldades. De alguma forma, ele realmente me comoveu. Eu ficava me perguntando o que aconteceu com ele”.
A Prisão do Maníaco de Barnaul
Acima de qualquer suspeita, misturado a uma isolada comunidade rural e vivendo pacificamente como um funcionário público e homem do campo, Manishin podia acreditar que seu passado horrível estava enterrado e nunca seria desnudado. Mero engano. Em maio de 2023, o homem de 54 anos foi surpreendido em sua casa por forças de segurança que o prenderam e o obrigaram a entrar em uma viatura com direção a Barnaul. A operação policial que prendeu o assassino em série foi gravada.
“Naquela manhã, levantei cedo para ordenhar [as vacas] e, quando abri a porta, havia um grande grupo de policiais”, disse a esposa do maníaco, Tatyana Lopina, segundo o jornal Baza . “Eles entraram primeiro na casa. Meu marido estava dormindo no sofá, eles o levantaram, o levaram para fora e me disseram: ‘Você ouviu falar dos assassinatos na Politécnica, das cinco meninas que desapareceram?’ Bem, ele é um suspeito. Ele ficou em silêncio, não disse nada. Estava de costas, de frente para a parede. Mandaram-me trazer o passaporte e as roupas dele. Enquanto eu estava lá fora, eles o colocaram em um carro e foram embora”.
Segundo Tatyana, buscas foram realizadas mais duas vezes, em julho e agosto, quando telefones e computadores foram confiscados dela e de seus filhos. Manishin ficou incomunicável por mais de um mês, e seus advogados foram impedidos de vê-lo. Como muitas esposas de assassinos em série, ela não acreditava que ele fosse o culpado. “No verão, a gente acordava às cinco da manhã e voltava para casa, às vezes, à uma, às vezes às duas da manhã”, disse a um programa do jornal Baza. “Temos trinta e cinco hectares. Quando ele teria conseguido fazer isso se era ele mesmo que cortava a grama? Somos nós que cortamos e trituramos a lavoura, nós fazemos tudo sozinhos. Não temos tempo; estamos trabalhando o tempo todo”.
Investigadores do Krai de Altai começaram a revisar o caso do “Maníaco de Barnaul” — também conhecido como “Maníaco do Politécnico” — em 2016. Desta vez, Manishin era o principal suspeito. Os novos investigadores se depararam com a ligação anônima para a polícia em 2000 e, nos anos seguintes, coletaram um volume considerável de evidências circunstanciais contra o vice-prefeito de Shadrino.
Dois meses antes da prisão do suspeito, uma entrevista com Roman Shapoval, chefe dos investigadores, foi publicada na imprensa de Altai. O perito comentou sobre as investigações de crimes passados e mencionou que, no caso não resolvido do Maníaco de Barnaul, os investigadores haviam identificado um perfil de DNA que eventualmente os levaria ao assassino. Na verdade, não havia vestígios de DNA. A entrevista foi uma estratégia pensada ´pelos investigadores para enganar o assassino: eles esperavam que Manishin “ficasse nervoso” com a informação e, de alguma forma, se entregasse. Mais tarde, porém, foi descoberto que Manishin não leu a entrevista.
Vitaly Yegorovich Manishin foi oficialmente preso em maio de 2023 sob suspeita de assassinar Lyudmila Obidina, em 1989. Posteriormente, ele foi acusado dos assassinatos de várias outras mulheres que desapareceram entre 1999 e 2000 em Barnaul.
Inicialmente, o suspeito negou seu envolvimento na morte de Obidina, mas, após passar a noite sob custódia, confessou tê-la matado. Segundo os autos do processo, Manishin abordou Obidina, “contra quem cometeu um crime contra a integridade sexual, então a estrangulou e enterrou seu corpo”. Manishin, “um homem enigmático, astuto, inteligente e erudito”, tentou sair impune ao confessar apenas o assassinato de Obidina.

O assassino em série Vitaly Manishin durante reconstituição de um de seus crimes.
Ele tentou convencer os policiais de que não estava envolvido nos desaparecimentos da Politécnica, mas, ao mesmo tempo, tentava enganá-los para saber o que os homens da lei tinham contra ele. Em dado momento, durante os interrogatórios, Manishin percebeu estar encurralado e gradualmente confessou cinco assassinatos de universitárias.
Na confissão, Manishin afirmou que abordou as vítimas da seguinte maneira: oferecendo-lhes ajuda para ingressar na universidade, depois as levou para fora da cidade em seu carro, manteve relações sexuais com elas e, em seguida, as matou. Manishin alegou que todas as garotas, exceto Ksenia Kirgizova, consentiram voluntariamente em ter relações sexuais — uma alegação, obviamente, muito suspeita. Kirgizova, a quem ele prometeu ajudar a se transferir para um programa financiado pelo governo, entrou em pânico e começou a gritar dentro do carro. Manishin parou, a estrangulou e a estuprou, enterrando o seu corpo em uma ravina perto da rodovia.
Meses após ser preso, Manishin foi levado ao distrito de Kalmansky para revelar onde havia escondido os corpos das universitárias desaparecidas. Perto do vilarejo de Novoromanovo, Manishin apontou o local onde enterrou o corpo decapitado de Liliana Voznyuk. Assim, vinte e três anos depois, seus restos mortais puderam ser devolvidos à família. As autoridades policiais não especificaram como ou por que Manishin decapitou Liliana.
Em certo momento, durante a viagem, Manishin pediu ao motorista que virasse em uma direção que os investigadores não esperavam. “Há três corpos ali”, disse o maníaco. A descoberta chocou os investigadores, pois as vítimas eram desconhecidas, casos que a polícia tinha conhecimento, mas que não foram ligados ao Maníaco da Politécnica.
Os cadáveres eram de Nina Mikhailyukova, Choduraa Oorzhak e Elena Anisimova. Como costumava fazer, Manishin abordou Mikhailyukova com a promessa de conseguir uma bolsa de estudos para sua filha. Quando a mulher lhe pagou nove mil rublos, ele a estuprou e matou.

Vitaly Manishin concede uma entrevista ao programa Vesti Altay. Ninguém podia imaginar o passado sangrento do vice-prefeito.
O Curandeiro Siberiano
No total, Vitaly Manishin assassinou 11 pessoas, incluindo Svetlana Filipchenko e Natalya Berdysheva, duas jovens mulheres que chegaram a Barnaul no verão de 2000 em busca de trabalho.
De muitas maneiras, este homicida russo difere de outros assassinos em série. Uma das principais diferenças é que ele conseguiu parar de matar. O sentimento de poder ser pego provavelmente foi o que pesou. De acordo com o que foi divulgado de suas confissões, Manishin ficou angustiado quando os restos mortais de Ksenia Kirgizova foram encontrados. Ele ficou ainda mais tenso quando descobriu que o pai da vítima era um empresário rico e influente e a cobertura midiática que se seguiu o colocou na corda bamba. O medo foi o gatilho que o forçou a parar. Se não parasse, seria difícil se manter anônimo.
Houve, também, para ele, um timing perfeito: o suicídio de Anisimov. Quando o principal suspeito do caso se matou, Manishin decidiu que aquela era a sua chance — assim, nenhuma outra estudante desapareceria e todos pensariam que isso ocorreu porque o “assassino” Anisimov não estava mais entre os vivos. Além disso, ele conheceu Tatyana, uma mulher que o satisfazia como esposa e companheira.
Seu passado homicida, porém, foi desenterrado por detetives incansáveis e, em 1º de outubro de 2025, o Tribunal Distrital de Kalmansky o condenou a 25 anos de prisão: os primeiros sete anos serão cumpridos em uma prisão comum e os 18 restantes em uma colônia penal de segurança máxima. A pena de prisão perpétua não foi possível devido ao tempo que o estado russo levou para levá-lo a julgamento.

Vitaly Manishin foi mantido em uma cela de vidro durante o seu julgamento.
Ao anunciar o veredicto, o juiz mencionou o livro Conspirações de um Curandeiro Siberiano, confiscado de Manishin durante uma busca.
Quando encontrado, o marcador de páginas estava em um capítulo chamado Como Apagar Sua Memória. O capítulo conta uma história sobre estupro e a possibilidade de apagar as memórias do ocorrido. Em entrevista a um site de notícias de Krai de Altai, o ex-investigador Ivan Zelensky revelou: “Quando interroguei Manishin, perguntei a ele que tipo de literatura era aquela. Ele explicou que, após os crimes, sentiu-se mentalmente doente, deprimido. Ele recorreu aos serviços de médiuns e psicanalistas; as lembranças começaram a oprimi-lo. Como ele mesmo disse, ‘a vida piorou’ — um estado de medo, pesadelos terríveis. Ele começou a ler o livro quando [as lembranças] se tornaram insuportáveis”.
Não podemos imaginar o quão esmagadoras podem ser essas memórias. De qualquer forma, este maníaco terá muito tempo para pensar e ler livros — serão 18 anos trancafiado em um lugar totalmente apropriado para homens como ele.
Informações:
Nome: Vitaly Yegorovich Manishin
Nascimento: 10 de novembro de 1971, Zelyonaya Dubrava, Krai de Altai, Rússia
Apelido: Maníaco de Barnaul, Maníaco da Politécnica
Vítimas: 11 confirmadas
Período: 1989 – 2000
Local: Krai de Altai, Rússia
Prisão: maio de 2023
Pena: 25 anos
Com informações: Kommersant.ru, Gazeta-n1.ru.





