Celebridades Assassinadas: Euclides da Cunha — Traição & Honra

Em 1905, um estudante de 17 anos vindo de Porto Alegre chegou ao Rio de Janeiro para continuar seus estudos na escola militar. Seu nome era Dilermando de Assis....

Em 1905, um estudante de 17 anos vindo de Porto Alegre chegou ao Rio de Janeiro para continuar seus estudos na escola militar. Seu nome era Dilermando de Assis. Ao aceitar o convite de sua tia Lucinda para fixar residência na casa dela no Flamengo, Assis, sem saber, aceitou o convite para uma tragédia que deixaria profundas cicatrizes no Brasil da primeira metade do século XX.

Lucinda não morava sozinha. Ela tinha a companhia de uma amiga. Seu nome era Ana Cunha — casada, três filhos e 33 anos. O marido de Ana passava longos períodos longe de casa a trabalho, por isso, ela gostava da companhia de Lucinda. Sozinha e carente, Ana não resistiu ao rapagão de cabelos loiros e olhos azuis, e se insinuou. “Numa ebriez incontível, se consumou o meu crime”, diria Assis décadas depois. O crime? Ir para a cama com uma mulher casada.

Essa história seria apenas mais uma desconhecida envolvendo adultério, não fosse o marido de Ana, simplesmente Euclides da Cunha, um dos gênios da literatura do século XX e autor da magnífica obra “Os Sertões”. O autor soube da traição da esposa, mas a perdoou. Ana, entretanto, continuaria a se encontrar com o amante.

TRAGÉDIA DA PIEDADE


Em 1906, Ana ficou grávida de Assis. Enojado, Euclides a perdoou novamente, mas trancou o bebê em um quarto e ele faleceu de inanição, sendo enterrado às pressas. No ano seguinte, de novo, Ana engravidou do amante. Euclides, moreno, cabelos pretos e olhos escuros, se enfureceu ao ver o bebê que acreditava ser seu: o menino era loiro e de olhos azuis — daí sua famosa frase sobre a criança: “uma espiga de milho num cafezal”.

Seguiu-se um novo perdão, mas o casamento desandou e Ana decidiu se juntar a Assis. Em 1909, com 43 anos e tuberculoso, tendo perdido a esposa para um homem bem mais jovem e sentindo-se humilhado perante a sociedade, Euclides decidiu lavar a honra com sangue.

Em 15 de agosto, ele entrou na casa de Assis aos gritos de “bandido desgraçado, mato-os!”, atirou nas costas de Dinorah, irmão de Assis, e quatro vezes contra seu rival. Cadete do exército e campeão de tiro, Assis foi capaz de pegar sua arma e silenciar para sempre o imortal da cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras.

Dilermando sobreviveu aos disparos e sete dias após ser absolvido por legítima defesa, se casou com a viúva Ana. Teve com ela cinco filhos. O casamento durou 20 anos, até Ana descobrir que Dilermando tinha uma amante. Eles se separaram e Dilermando casou-se com a amante. Ana ficou sozinha até o fim da vida. Ela faleceu em 12 de maio de 1951, aos 78 anos.

Essa história trágica ocorrida no bairro da Piedade, Zona Norte do RJ, continuou em 1916, quando Euclides Filho, de 21 anos, buscando vingar e honrar o pai, emboscou Dilermando no antigo fórum do Rio com quatro tiros em suas costas. Mais uma vez, Dilermando, que era militar e andava armado, sobreviveu e foi capaz de revidar, matando Euclides Filho. Ele passou por cirurgias, mas permaneceu até o fim da vida com quatro balas alojadas dentro do corpo, duas do pai e duas do filho. Como em uma tragédia grega, ele matou o filho da própria esposa.

Dinorah, irmão de Dilermando, jogador do Botafogo, sobreviveu ao tiro dado por Euclides, mas ficou com a bala alojada na espinha. Ele foi campeão carioca de futebol em 1910, mas aos poucos perdeu os movimentos de parte do corpo. Jovem e inválido, Dinorah sucumbiu à loucura e, após várias tentativas de suicídio, finalmente conseguiu se matar em 1921, aos 32 anos.

Dilermando chegou à patente de general e teve importantes cargos no governo de São Paulo. Sua vida, entretanto, foi um verdadeiro inferno, pois ficou marcado como o homem que matou o gênio Euclides da Cunha e seu filho, um escândalo que permaneceu nos jornais e revistas brasileiras por quarenta anos, até Dilermando falecer aos 61 anos, em 1951, poucos meses após a morte de Ana.

Um dos poucos a defendê-lo publicamente foi o escritor Monteiro Lobato, que afirmou que mataria até Shakespeare se este aparecesse enlouquecido em sua casa atirando em sua direção.

Euclides da Cunha é um raro caso de celebridade homicida que foi assassinada. Isso porque ele foi o responsável pela morte de Mauro, filho de sua esposa com o amante, nascido em 1906. Três anos depois, ao tentar matar o pai de Mauro, foi assassinado em legítima defesa.

Referências: [1] Euclides da Cunha não foi assassinado. Diario da Noite. 6 de nov. 1941. Pág. 3; [2] Uma Tragedia. A Noticia. 18 de ago. 1909. Pág. 2; [3] A Tragedia da Piedade. A Noticia. 27 de ago. 1909. Pág. 2; [4] O Crime de Matar um Deus. O Cruzeiro. Ed. 4. 1951. Pág. 14; [5] O Peão Matou o Rei. O Cruzeiro. Ed. 5. 1951. Pág. 103; [6] A Tragédia que Abateu Euclides da Cunha. Manchete. Ed. 382. 1959. Pág. 56; [7] “Euclides matou-se pelas minhas mãos”. O Cruzeiro. Ed. 6. 1951. Pág. 34.

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Por:


Daniel Cruz
Texto

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
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