A análise psicológica de Ted Bundy em 1976, por Al Carlisle

Trabalhando no sistema penitenciário do estado norte-americano de Utah, o psicólogo Al Carlisle abriu sua agenda numa manhã de março de 1976 e notou apenas um compromisso naquele dia:...

Trabalhando no sistema penitenciário do estado norte-americano de Utah, o psicólogo Al Carlisle abriu sua agenda numa manhã de março de 1976 e notou apenas um compromisso naquele dia: a avaliação mental de um novo prisioneiro. O homem era jovem, 29 anos, e Carlisle não quis ler muito sobre ele no arquivo para não ser influenciado antes de poder examiná-lo.

Ele apenas leu o seu nome: Theodore Robert Bundy.

“Oi, eu sou Ted Bundy. Você deve ser o Dr. Carlisle,” disse o preso ao ver o psicólogo, estendendo sua mão para cumprimento. Bundy fora preso por sequestrar uma garota e tentar matá-la e tal ato não combinava nem um pouco com o rapaz. Ele estudava Direito, era inteligente, esteve envolvido na política e tinha uma personalidade encantadora. Com essa capa e dado que apareceram inúmeras pessoas afirmando que Ted era incapaz de qualquer ato de violência, o juiz concedeu-lhe o benefício da dúvida e ordenou que um exame psicológico fosse feito para atestar sua periculosidade antes da proferição da sentença.

Ted era comprido, bem apessoado e amigável. Ele parecia confiante e alegre, sorrindo o tempo todo, e isso pareceu estranho a Carlisle dada à situação em que se encontrava. Obviamente, o criminoso queria causar uma boa impressão, acreditando que suas boas maneiras comprariam Carlisle.

O psicólogo, de fato, sentou-se frente a frente com um enigma, isso porque ele sabia da ótima reputação de Ted. Muitas pessoas afirmavam que a polícia havia pego o homem errado, já outras não podiam acreditar em como a justiça cometeu tal “erro”. Bundy, entretanto, podia enganar as pessoas, mas não especialistas da mente. Evan Lewis, o primeiro psicólogo a avaliá-lo em Utah, escreveu sobre ele:

“Ele parece ser um homem intelectualmente brilhante, capaz de dar respostas socialmente aceitáveis a perguntas óbvias, disfarçando assim suas verdadeiras atitudes e crenças. O Sr. Bundy é capaz de compartimentalizar suas emoções e processos de pensamento em um grau incomum. Ele é capaz de dar às pessoas impressões muito diferentes de si mesmo, dependendo do conjunto de padrões que ele escolhe para guiar seu comportamento.”

Seria essa, a mesma opinião de Al Carlisle?

O erro da jovem Carol DaRonch foi entrar no carro de um homem desconhecido que a abordou em um shopping da cidade de Murray, em Utah. Ela foi manipulada pela aparência, conversa e trejeitos do sujeito que disse ser um policial. Ele era Ted Bundy e a moça conseguiu escapar ao reagir e pular fora do carro. (Outras mulheres não tiveram tanta sorte).

Mas, afinal, quem era esse sujeito, um estudante bem-sucedido aspirante a político que foi até Utah para se formar em direito ou um agressor de mulheres? Havia uma sombra sobre Bundy e o psicólogo Al Carlisle sabia das conversas sobre ele ser um suspeito do morticínio de universitárias no estado de Washington. Mas dado que ele nunca foi indiciado, ele deixou isso de lado.

Mas o mais enigmático para o psicólogo foram os testes psicológicos completamente normais. Eles mostraram um homem sem problemas de personalidade. Não havia raiva, angústia ou depressão. Nada. Esse cara é diferente, pensou Carlisle. O psicólogo era macaco velho e sabia que havia dois Ted’s — o real e o que aparecia em sociedade. Mas como ele conseguiu enganar os testes? Dado que eles não desnudaram o paciente, Carlisle, então, teve que suar a camisa.

DESSENSIBILIZAÇÃO


Uma das respostas de Ted no TWIST — um teste que consiste em completar o final de uma frase — intrigou o psicólogo. “Quando frustrado eu: ‘DESSENSIBILIZO'” escreveu Ted em caixa alta. Dessensibilização é um processo psicológico usado para ajudar uma pessoa a reduzir o medo e controlá-lo. É uma técnica que pode ser aprendida na faculdade e Ted estudou psicologia. Carlisle só foi entender a resposta dias depois quando perguntou ao paciente se ele tinha medo de alguma coisa. Disse Bundy:

“Eu não tenho medos! Medo, dor e punição, isso não é comigo!”

O tom de voz raivoso e os olhos vidrados de Ted assustaram o psicólogo. Parecia que o homem enxergava o medo como uma fraqueza e ele não tinha fraquezas. Aparentemente, Ted aplicou o processo de dessensibilização para não sentir medo (e possivelmente culpa). Mas por quê?

Como ele previra, havia dois Ted’s. O psicólogo começava a adentrar na mente doentia de Ted Bundy e ele cavaria cada vez mais em busca da verdade.

Com o relatório de Al Carlisle em mãos, Ted Bundy deu um show de interpretação com uma voz raivosa e lágrimas nos olhos diante do juiz, família, amigos, sua namorada Liz e do psicólogo em um tribunal de Utah. Se Carlisle não o conhecesse, teria comprado a sua atuação. O público comprou e Carlisle percebeu isso pelo olhar deles em sua direção.

Enfurecido, como se estivesse sofrendo uma injustiça, Ted afirmou que as conclusões do psicólogo estavam erradas e que Carlisle montou uma história para encaixá-lo no crime pelo qual estava sendo julgado. “Ted pareceu sincero e credível”, escreveu o psicólogo. O juiz, entretanto, não se comoveu e Ted foi condenado a um mínimo de cinco anos com possibilidade de perpétua pelo sequestro e tentativa de assassinato de Carol DaRonch.

A AVALIAÇÃO


O psicólogo não tinha bola de cristal e não podia saber que tinha avaliado um homem possuidor de um intricado psiquismo e que já era um macabro assassino em série. Mas baseado em suas observações, acertadamente Carlisle atestou que Ted Bundy era um homem violento e perigoso. Ele tinha um lado negro que escondia muito bem. Ted podia ser agradável, mas também sombrio. Era como se ele tivesse duas personalidades, intercambiando-as em momentos específicos.

Sentimentalmente, Ted tinha medo de ser ferido, por isso, nunca deixava as pessoas se aproximarem intimamente dele; ele se relacionava com as pessoas em seus próprios termos, sempre querendo estar no controle; sua demasiada confiança externa era apenas uma capa para cobrir suas inadequações e sentimentos de inferioridade. Ted era egocêntrico e tinha uma personalidade volátil; apesar de afirmar não ter medos, intimamente, ele era um homem cheio deles.

Traumas passados contribuíram para um sentimento crônico de inferioridade. Ele tinha fixação pela riqueza e por uma posição social que lhe garantisse status e respeito. Se ele era psicopata, pensou Carlisle, o transtorno desenvolveu-se na adolescência.

Ao final dos encontros com o psicólogo, Ted fez uma pergunta que surpreendeu Carlisle.

“Você acha que eu matei aquelas garotas?”

Após pensar, Carlisle respondeu.

“Eu não sei. Mas se foi você, você não irá parar”.

Não se falava em outra coisa em Tacoma, no estado de Washington. Uma criança de apenas 8 anos simplesmente desaparecera de seu quarto numa madrugada de agosto de 1961. Ninguém viu ou ouviu nada. Alguém entrou no quarto, agarrou a criança e a levou embora. O sumiço mobilizou toda a cidade e imediatamente uma extensa busca com a ajuda de soldados do exército e da Guarda Nacional começou. A criança, Ann Marie Burr, jamais foi encontrada e seu desaparecimento se tornou um dos maiores mistérios da história de Tacoma. Muitos anos depois, entretanto, o nome de um suspeito entrou no radar das autoridades.

TED BUNDY


O psicólogo Al Carlisle sabia que seu paciente havia morado em Tacoma, não muito distante da casa de Ann Marie Burr. Para aumentar ainda mais as suspeitas, Ted, 14 anos na época, rodava com sua bicicleta entregando jornais na região da residência dos Burr.

“Então, eu não sei nada a respeito,” respondeu secamente Bundy após a pergunta de Carlisle.

“Mas a cidade inteira buscava por ela. Ela morava perto de você. Como você não podia saber nada?”, insistiu o psicólogo.

“Eu estava envolvido em minhas atividades escolares e não prestei atenção nisso.”

Antes, Carlisle não imaginava que Bundy pudesse ter algo a ver com o desaparecimento, mas após sua resposta, isso mudou. Não fazia sentido Ted não saber. A história era capa dos jornais! Os mesmos jornais que ele distribuía. O sumiço de Marie estava nas conversas das mesas dos bares, almoços de famílias, escola, televisão, todos os dias, por semanas, meses. “Ted me dizer que não prestou atenção nisso acendeu um sério alarme vermelho em minha mente sobre coisas que ele parecia não querer me contar”, escreveu o psicólogo.

Por outro lado, a indiferença de Ted podia ser verdadeira, talvez um reflexo de sua personalidade narcísica e fria, direcionada apenas naquilo que lhe trazia benefício.

“O sumiço de Marie e a insistência de Ted de que ele não sabia, mesmo a cidade inteira traumatizada, sugeria que ele podia ter algo a ver”, concluiu o psicólogo.

No último mês de agosto, fez 60 anos do desaparecimento de Ann Marie Burr. Até os dias de hoje o seu desaparecimento permanece um mistério.

Referência: Carlisle, Al. Violent Mind: The 1976 Psychological Assessment of Ted Bundy (The Development of the Violent Mind Book 3) . Genius Book Publishing. Edição do Kindle.

Podcasts OAV


Escute os podcasts do Aprendiz Verde em nosso site de podcasts ou no agregador de sua preferência.

Apoie o OAV


Apoie o nosso trabalho. O Aprendiz Verde precisa do seu apoio para continuar a crescer, disponibilizando textos e podcasts de qualidade, assim como o desenvolvimento de outros projetos. Acesse a página abaixo e saiba como apoiar.

Por:


Daniel Cruz
Texto

Assine o nosso projeto no Catarse

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
Deixe o seu comentario:

RELACIONADOS

Receba nosso conteúdo por e-mail!

Digite o seu endereço de e-mail:

OAV Crime no WhatsApp!

OAV no Whatsapp

OAV Crime no Twitter

As últimas notícias

Categorias

×