A bizarra psicologia da assassina em série Carol Bundy

Quando uma mulher rechonchuda e de óculos entrou numa delegacia de Los Angeles em 11 de agosto de 1980 o delegado que a atendeu mal acreditou no que ouviu....

Quando uma mulher rechonchuda e de óculos entrou numa delegacia de Los Angeles em 11 de agosto de 1980 o delegado que a atendeu mal acreditou no que ouviu. Na verdade, ele quase a enxotou para fora. O nome da mulher era Carol e o seu problema atendia pelo nome de Daniel, seu marido. Ela estava com medo dele. Mais uma mulher que apanha do marido, pensou o delegado. A história, porém, mudou radicalmente quando Carol confessou que ela e Daniel eram um casal de serial killers responsáveis por horrendos assassinatos.

“A situação começou como uma fantasia que saiu do controle. Daniel é uma boneca real e eu amo ele. Parte de mim se sente uma merda por delatar ele. Por outro lado, existe um homem lá fora matando pessoas e que não têm sentimento ou consideração por nada. [Ele pega] prostitutas jovens. Acredite ou não, seu critério [para matar] é se ela faz ou não um boquete decente,” disse a mulher de 37 anos.

Tudo começou com a imaginação fértil do casal, explicou Carol. Eles tinham fantasias de sequestrar mulheres e abusar delas. Logo, as fantasias evoluíram para pensamentos de necrofilia e morte. O casal fazia sexo e simulava as fantasias. Então veio a primeira vítima, Cathy. A experiência foi tão excitante que eles saíam praticamente todas as noites em busca de mais mulheres. Uma delas, chamada Exxie, foi decapitada e teve a cabeça guardada no congelador. “Nos divertimos muito com a cabeça”, disse Carol. “Eu gostava de maquiá-la usando cosméticos. Eu cuidei dela como uma Barbie. Daniel a levava ao banheiro, enfiava o pênis na sua boca e se masturbava na boca dela durante o banho… Daniel a segurava pelos cabelos e ficava balançando”.

Eles, também, mataram sozinhos. Carol, inclusive, decapitou e mutilou um amigo. Ela não tinha consciência, “não era eu”, disse ela, descrevendo um tipo de estado de despersonalização. “Não sei o suficiente de psicologia… obviamente não sou paranoica. Se sou ou não esquizofrênica, não sei. Pessoas não saem por aí matando. Não posso ficar com Daniel porque ele acabará me machucando.”

Carol fez a coisa certa ao se entregar, entretanto, ficou uma pergunta: como explicar um comportamento tão doentio? 

Ao se deparar com a história de um assassino macabro, é natural voltarmos ao seu passado na tentativa de decifrar o comportamento criminoso. No caso de Carol Bundy, sua infância não apresentou episódios traumáticos ou relevantes. Mas tudo mudou na adolescência. Aos 15 anos, sua mãe morreu de ataque cardíaco. Seu pai ficou devastado. “Ela era o Sol e meu pai girava em torno dela”. Emocionalmente dependente da esposa, o homem entrou em parafuso e na noite em que enterrou a mulher tentou abusar sexualmente da filha. Carol o rejeitou e o pai se dirigiu até o quarto de sua irmã.

Carol passou a agir de forma estranha, às vezes dançando nua no telhado da sua casa e outras vezes espiando pelas janelas dos vizinhos. Exibicionismo e voyeurismo seriam duas parafilias constantes em seu histórico sexual.

Seu pai a abandonou emocionalmente e 18 meses depois casou-se de novo. Rejeitado na noite de núpcias, o homem tentou o suicídio e matou o seu gato, espalhando o sangue do animal pelas paredes. Tempos depois, aos 18 anos, Carol foi estuprada pelo irmão do namorado ao mesmo tempo em que recebia a notícia do suicídio de seu pai por enforcamento. Dois dias se passaram e seu estuprador também cometeu suicídio. “Não havia orientação e controle. Sem afeto. Relacionei sexualidade com afeto. Eu fazia sexo com qualquer um. Eu sempre tive animosidade em meus sentimentos pelos homens. Em retrospecto, posso ver que não selecionei bons homens. Eu fomentei minha própria neurose”.

Ainda aos 18, casou-se com um homem vagabundo, mas “charmoso e bonito”, que a prostituiu, abusou e espancou. Seu segundo casamento foi com um homem homossexual. Era um relacionamento “estranho e desconfortável”, mas que gerou dois filhos. Com o término da relação e sentimentalmente dependente da companhia masculina, Carol deu uma nova chance ao cupido. O escolhido? Um simpático homem mais novo chamado Douglas Daniel.

“Ele tinha total controle sobre mim. Eu tinha uma falta de vontade. Ele tinha uma voz suave, sedutora e sensual.”

Os oito meses de relacionamento foram excitantes, o sexo era incrível e tudo ficou ainda melhor quando ambos descobriram compartilhar macabras fantasias sexuais.

O que a psicologia teria a dizer sobre uma assassina como Carol Bundy? É bem óbvio que sua personalidade está organizada em um nível limítrofe, com traços de caráter predominantemente masoquistas, histriônicos e psicopatas. Sua psicologia é dominada por dois temas psicodinâmicos: o par Sexo & Morte e a centralidade de dominação e submissão.

A ligação entre Sexo & Morte foi estabelecida a partir de três eventos traumagênicos na juventude:

  1. morte da mãe + abuso sexual do pai;
  2. estupro + suicídio do agressor e;
  3. sexo com qualquer um + suicídio do pai.

Esse padrão foi repetido em ligações impulsivas com homens abusivos e culminou em seu intenso apego a um assassino sexual em série cujo ato necrófilo mais delicioso foi sentir as contrações vaginais de uma mulher enquanto a estrangulava. “Daniel era o parceiro perfeito para mim,” relatou Carol.

Carol repetiu o ciclo de degradação iniciado por seu pai numa tentativa inconsciente de desfazê-lo. Ela abertamente se identificava com seu caráter masoquista e o continuou na prisão. Ela se relacionou com uma detenta; Carol se masturbava e dançava nua para ela, e a deixava espancá-la. “Eu pertenço a ela e ela pode fazer o que quiser comigo”.

Inconscientemente, Carol procurou por homens que representassem seu sadismo, de forma que eles satisfizessem esse aspecto passivo-agressivo de sua personalidade. Isso atingiu seu ápice nas atrocidades que ela testemunhou Daniel cometer, um ato voyeurístico em que ela poderia se ver como a prostituta, na fantasia, sendo humilhada e morta pelo sádico vez após outra.

Esta é uma forma incomum de identificação projetiva em que Carol projetava nas vítimas suas próprias inadequações, então desfrutava passivamente do domínio e controle de Daniel sobre elas, incluindo sua aniquilação, participando e identificando-se com ele como o agressor.

Essa triangulação também sugere o tema edipiano (Electra) de realmente matar a mãe durante o acasalamento com o pai, de forma que a filha possa estar num igual sexual e romântico com o pai. Carol repetiu isso várias vezes com Daniel, um psicopata que proporcionou um palco do mundo real para os impulsos mais primitivos de Carol.

Oito anos após sua prisão, a assassina em série Carol Bundy foi avaliada pelos psicólogos Carl Gacono e Reid Meloy que aplicaram-lhe uma variedade de testes, incluindo o Rorschach, o Apercepção Temática, o Inventário Multifásico Minnesota de Personalidade (MMPI), dentre outros.

“Ela estava emocionalmente instável. Ela ia de risadas incontroláveis a explosões dramáticas, como quando bateu na mesa um dos cartões (VI) do Rorschach,” escreveram os psicólogos. Os testes mostraram uma mulher submissa, inclinada a realizar os desejos dos outros em detrimento dos dela. Sua personalidade era marcada pela contradição e conflito. Ela não era psicótica, não havia delírios, alucinações ou pensamentos desorganizados. Carol tinha uma personalidade infantil, histérica, autodestrutiva, esquizotípica e limítrofe. Um dos testes identificou um transtorno distímico e um transtorno de ansiedade generalizado.

A pontuação alta na escala 4 do MMPI apontava para seu histórico antissocial (psicopata) antes do encarceramento (com prevalência para os problemas familiares e com autoridades; alienação social e a autoalienação).

O risco de Carol repetir suas atrocidades caso fosse solta era extremamente baixo, disseram os psicólogos, A NÃO SER que ela encontrasse um macho que, mais uma vez, tivesse a capacidade de despertar e alimentar o seu sadismo.

Dado que controlar essa possibilidade era impossível (além de não estar recebendo tratamento psicológico adequado na prisão), Carol nunca poderia ser solta. “Seu fracasso em aprender com sua experiência também é desconcertante,” atestaram os psicólogos. Na época, Carol continuava a receber cartas de Daniel, e escrevia em resposta. Daniel foi capaz de conseguir os telefones dos dois filhos dela e todas as vezes em que eles se mudavam, Daniel os telefonava para dizer saber onde eles estavam — um típico comportamento psicopata de induzir medo e controlar os outros, mesmo estando no Corredor da Morte.

Detalhes completos da personalidade complexa e distorcida de Carol Bundy, assim como os resultados dos diversos testes psicológicos aplicados a ela foram descritos por Gacono & Meloy em um livro publicado em 1994.

Referência: Gacono, Carl; Meloy, Reid. The Rorschach Assessment of Agressive and Psychopathic Personalities. Routledge. Primeira Edição. 1994.

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Por:


Daniel Cruz
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