Celebridades Assassinadas: Marvin Gaye — frágil & talentoso

Em 1982, ao ser perguntado sobre o sentimento de novamente chegar ao topo do mundo, o cantor Marvin Gaye expôs a angústia de uma alma atormentada: “Tenho muito medo,...

Em 1982, ao ser perguntado sobre o sentimento de novamente chegar ao topo do mundo, o cantor Marvin Gaye expôs a angústia de uma alma atormentada: “Tenho muito medo, porque só existe um lugar para onde eu posso ir agora”. O “lugar” aqui é a chave. O músico usou a palavra para se referir ao fundo do poço, um “lugar” que ele já estivera muitas vezes.

Instável, emocionalmente frágil e psicologicamente perdido, Gaye tinha tudo para não dar certo, mas foi essa combinação infeliz, aliada ao talento nato e sensibilidade extrema, a receita para ele ser considerado pela crítica o 18º maior artista de todos os tempos. A música, entretanto, não conseguiu salvá-lo de si próprio.

PAI & MÃE


As raízes que guiaram Gaye por sua música e vida dramática residem em seus pais. Enquanto a mãe o amava e o incentivava a cantar na igreja, seu pai nutria por ele nada mais do que desprezo. O Sr. Marvin era um fanático religioso crossdresser que surrava os filhos e os deixava com fome, porque o sofrimento os faria estar “mais perto de Deus”. Pastor na igreja e o diabo fora dela, Marvin Sr. traía a esposa e abusava da família. Tirânico e possessivo, não tolerava ver a esposa demonstrando carinho pelo filho, então a espancava.

Gaye cresceu com pensamentos suicidas e vários conflitos internos, mas foi capaz de mudar o jogo sabe-se lá como. Aos 17 anos, fugiu de casa para se tornar um dos maiores cantores do mundo. Gravando pela Motown, lançou discos monumentais, como “What’s Going On”, mas o comportamento errático e o abuso de drogas o fizeram se exilar na Europa.

Os anos em exílio foram proveitosos e o retorno triunfal. Lançado em 1982, “Midnight Love” vendeu milhões de cópias. Nele havia o hit “Sexual Healing”, sucesso estrondoso que lhe rendeu dois Grammys. No topo novamente, Gaye estremeceu, pois só havia um lugar para onde poderia ir. Ele não imaginava, entretanto, o destino trágico que o esperava.

Morando com os pais, deprimido e viciado em cocaína, pela primeira vez Gaye enfrentou o pai autoritário. Marvin Sr. não tolerou o desaforo e, durante uma briga familiar, matou o próprio filho com dois tiros, calando para sempre uma das maiores vozes da música do século XX.

Marvin Gaye foi um dos maiores nomes da gravadora Motown, que além dele reuniu gente como Michael Jackson, Stevie Wonder e Lionel Ritchie. Fã de Sam Cooke, Gaye extrapolou o ídolo ao forjar o chamado “Motown Sound” e se tornar o “Príncipe do Soul”, inspirando centenas de músicos e cantores que vieram nos anos e décadas seguintes, incluindo Amy Winehouse e Tupac Shakur. Sua vida foi um eterno sobe e desce, com picos de enorme sucesso apenas para em seguida se afundar em problemas, depressão e cocaína. Ele até mesmo tentou o suicídio.

Após voltar da Europa, lançou “Midnight Love” e amigos sugeriram que ele fosse morar com os pais, pois acreditavam que eles, principalmente a mãe, lhe dariam um bom suporte. Mas eis que o destino lhe reservou o mesmo destino de seu ídolo Cooke. Em 1 de abril de 1984, cansado de ver o pai abusando da mãe, Gaye o socou e o chutou após Marvin Sr. atacar a esposa. Depois de levar umas bordoadas do filho, Marvin Sr. calmamente caminhou até o seu quarto, pegou um revólver .38, presente de Natal dado pelo próprio filho, e o matou a sangue frio com dois tiros no peito.

No tribunal, Marvin Gaye Sr. alegou legítima defesa. Ele foi condenado por homicídio culposo e teve sua pena de seis anos suspendida devido a um suposto tumor cerebral. Ele faleceu sozinho em um lar para idosos em 1998. “Pai. Pai. Nós não precisamos agravar [a guerra]. Não me castigue com brutalidade. Pois apenas o amor pode conquistar o ódio”, diz a letra de uma das canções mais belas de Marvin Gaye. Em 2020, a revista Rolling Stone elegeu “What’s Going On” (1971) como o melhor disco da história da música.

Fontes consultadas: [1] Marvin Gaye: A life marked by complexity. Detroit Free Press. 8 abr. 1984. Páginas 1A e 15A; [2] Star in the remaking. The Guardian. 21 fev. 1981. Pág. 10; [3] What’s Going On. The Life And Death Of Marvin Gaye. Amazon. 2005; [4] Marvin Gaye: I’m a Drug Connoisseur. Philadelphia Daily News. 16 mai. 1985. Pág. 54.

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Por:


Daniel Cruz
Texto

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
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