Saeed Hanaei: o assassino em série celebrado como herói

O pedreiro iraniano Saeed Hanaei tinha um segundo trabalho que julgava deveras importante: se livrar de fêmeas impuras que espalhavam o pecado na cidade sagrada de Mexede. Quando a...

O pedreiro iraniano Saeed Hanaei tinha um segundo trabalho que julgava deveras importante: se livrar de fêmeas impuras que espalhavam o pecado na cidade sagrada de Mexede.

Quando a esposa e os filhos saíam para a mesquita, Hanaei pegava sua moto, escolhia uma mulher na rua, a levava para casa e a estrangulava com o véu islâmico (hijab). Ele quis enterrar a primeira vítima no jardim, mas a enrolou em um tapete, amarrou na moto e descartou em um local isolado.

Ele procurava pelas “corruptas”, ou seja, as que vendiam o corpo ou usavam drogas. Ele planejou matar mais de uma centena, pois, durante suas diligências por Mexede, contabilizou 150 “mulheres de rua”.

UM CASO ÚNICO


Em 2001, Saeed foi preso pelo homicídio de 16 garotas de programa. Não existia nenhum traço de culpa ou remorso na mente doentia do assassino, era “como se ele matasse galinhas”, descreveu um psiquiatra. No tribunal, após alegar estar em uma missão divina para limpar as ruas do vício e da imoralidade, o homem de 39 anos se tornou um herói para a sociedade conservadora de Mexede.

É um caso único no mundo: Igreja, mídia, homens, mulheres e crianças se uniram e foram às ruas pedir a liberdade do psicopata para que ele continuasse seu “trabalho”.

Jornais o descreveram como um “mártir da causa do bem e da proibição do mal”, já religiosos extremistas aprovaram publicamente suas ações com base em suas interpretações da Xaria.

Por trás da loucura coletiva jazia a verdade chocante: o verdadeiro monstro não era Hanaei, mas a sociedade apodrecida pela misoginia, fundamentalismo religioso e extremismo.

Após a condenação, a mãe do facínora fez ameaças diante da TV e afirmou que o neto continuaria o trabalho do filho. “Eu pegaria essas garotas [de programa] pelos cabelos e as cortaria em pedaços”, disse. Sorrindo, Ali Hanaei, o filho de 14 anos de Saeed, também foi entrevistado: “Haverá mais Saeed Hanaeis neste mundo. Desde sua prisão, dez ou vinte pessoas me pediram para continuar o que meu pai fazia. Veremos”.

Nesta história, o arrogante e fanático Saeed só perde em repugnância para o governo clerical e a parte radical da população, sendo, estas, as verdadeiras faces da banalidade do mal.

Após a prisão de Saeed Hanaei, outras trabalhadoras do sexo foram estranguladas, sendo estes homicídios executados por imitadores. Saeed, provavelmente o único assassino em série celebridade a ser celebrado pela sociedade, foi enforcado na prisão em 8 de abril de 2002. Em sua lápide foi escrito: “Hanaei, um homem que preferiu uma morte digna a uma vida humilhante. ‘Se eu removi a corrupção, foi para o bem do povo’.”. A lápide foi posteriormente trocada após pressão de Teerã, pois seu túmulo se tornou local de peregrinação. Entrevistado pela Associated Press, o filho Ali disse sobre a execução: “Não estou triste pela morte do meu pai. Estou triste porque ele falhou em atingir seu objetivo”.

Em seu julgamento, Saeed confessou que a matança foi precipitada quando sua esposa entrou em um táxi e foi confundida com uma prostituta, sendo maltratada pelo taxista. Posteriormente, ele iniciou sua “missão” e só parou quando uma vítima conseguiu escapar e dar detalhes do encontro à polícia. Para ele, tais mulheres eram agentes da corrupção moral e social.

As vítimas eram mulheres pobres, desesperadas e esfomeadas, algumas nem os dentes tinham, muitas estavam sozinhas no mundo. “Ela nunca havia visto um banheiro”, disse ele sobre uma das vítimas. Sua visão fanática e rasa o impedia de enxergar o óbvio: que essas mulheres eram vítimas da miséria gerada pela corrupção das elites iranianas que ele gostava tanto de elogiar. O juiz que o julgou, por exemplo, ascendeu no sistema judicial iraniano exatamente por ser corrupto, chegando a altas posições em Teerã. Quando ele se tornou inconveniente para os aiatolás, fugiu para a Europa, onde foi assassinado (na Hungria, em 2020).

Este caso surreal foi habilmente contado no elogiado filme Holy Spider, que recentemente entrou para o catálogo da Netflix.

VÍDEO: trecho de uma entrevista com Saeed Hanaei


Referências: [1] Suspect in Iran says he killed prostitutes ‘for the sake of God’. Fort Worth Star-Telegram. 26 ago. 2001. Pág. 31A; [2] Rise in Iranian prostitution blamed on strict sex rules, economy. The Daily Times. 17 set. 2002. Pág. 31; [3] Sudden death in Bucharest of Iranian judge responsible for torture of journalists. Reporters Without Borders. 19 jun. 2020; [4] [Traduzido do árabe: Quem foi Saeed Hanaei e como ele matava profissionais do sexo]. BBC News. 9 jun. 2022; [5] [Traduzido do árabe: E junto veio uma aranha]. Iran Wire. 2003. YT: @iranwire.

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Por:


Daniel Cruz
Texto

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
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