Ciência Forense: 800 anos de história em 7 casos

Na cabeça do público, CIÊNCIA FORENSE significa tecnologia de última geração, profissionais bem equipados realizando experiências complexas em laboratórios impecáveis — como em CSI ou Silent Witness. Na verdade,...

Na cabeça do público, CIÊNCIA FORENSE significa tecnologia de última geração, profissionais bem equipados realizando experiências complexas em laboratórios impecáveis — como em CSI ou Silent Witness. Na verdade, a história real da ciência forense está repleta de pioneiros excêntricos, desastres judiciais e pesquisas perigosas (e algumas vezes fatais).

Por anos, autoridades e indivíduos cultivaram a suspeita de que havia muito mais num crime do que apenas depoimentos: que a cena do crime, a arma de um homicídio ou, ainda, algumas gotas de sangue poderiam ser testemunhas da verdade. O primeiro registro do uso da ciência forense na solução de um crime vem de um manual chinês para legistas chamado A Limpeza dos Erros, escrito em 1247. Um dos diversos estudos de caso que ele contém acompanha a investigação de um esfaqueamento numa estrada. O legista examinou os cortes no corpo da vítima e, então, testou uma variedade de lâminas no cadáver de uma vaca. Ele concluiu que a arma do crime era uma foice. Apesar de descobrir o que havia causado os ferimentos, ainda havia um longo caminho até identificar a mão que empunhara a arma, então ele se voltou para os possíveis motivos. Os pertences da vítima estavam intactos, o que descartava a hipótese de roubo. De acordo com a viúva, ele não tinha inimigos. A melhor pista veio da revelação de que a vítima fora incapaz de satisfazer um homem que recentemente exigira o pagamento de uma dívida.

O legista acusou o agiota, que negou o crime. Mas, persistente como qualquer detetive de TV, ele ordenou que todos os 70 adultos da aldeia se alinhassem, com suas foices a seus pés. Não havia sinais visíveis de sangue em nenhuma das foices. Mas em questão de segundos uma mosca pousou entusiasticamente na foice do agiota, atraída por vestígios microscópicos de sangue. Uma segunda mosca pousou, e então outra. Quando confrontado novamente pelo legista, o agiota forneceu uma confissão completa. Ele havia tentado limpar sua lâmina, mas sua tentativa de ocultação foi frustrada pelos insetos delatores, zumbindo silenciosamente aos seus pés.

“Se houver alguma imprecisão no relatório da autópsia, a injustiça permanecerá com o falecido, assim como com os vivos.”

– A Limpeza dos Erros, 1247.

ENTOMOLOGIA FORENSE


Até o século passado, A Limpeza dos Erros era levado às cenas de crimes pelos oficiais chineses. Já o ocidente levou mais tempo para reconhecer os benefícios forenses da ENTOMOLOGIA (a ciência que estuda os insetos sob todos os seus aspectos e relações com o homem). Na Escócia, em 1935, os cientistas confiaram em insetos levados da cena do crime para resolver um dos assassinatos mais notórios da história criminal britânica. O caso teve grande repercussão, ocupando colunas e mais colunas nos jornais.

Em 29 de setembro, duas mulheres cruzavam uma ponte sobre uma ravina perto de Moffat, na estrada de Carlisle para Edimburgo quando, horrorizadas, perceberam que estavam olhando para um braço humano despontando da margem do rio abaixo. Quando a polícia chegou na cena do crime encontrou 30 pacotes ensanguentados contendo partes humanas enroladas em jornal; 70 partes foram recolhidas ao todo, de dois cadáveres diferentes. Era quase certo que eles foram esquartejados para impedir a identificação — as pontas dos dedos, os olhos e os dentes foram removidos. O trabalho claramente indicava alguém conhecedor da anatomia humana.

Algumas larvas foram encontradas se alimentando das partes em decomposição e foram enviadas para a Universidade de Edimburgo. Lá, os entomologistas as identificaram como uma espécie particular de mosca varejeira e usaram a evidência dos insetos para estimar o tempo em que os corpos foram descartados, algo entre 10 e 12 dias. Aquele lapso temporal sugeria uma possível identidade para os cadáveres. Isabella Ruxton, a esposa de Buck Ruxton, um conhecido médico local, havia desaparecido recentemente, junto com sua criada de 19 anos, Mary Rogerson. Ruxton sustentou que sua esposa havia fugido com um amante e que aquele não era um lar feliz. Buck acusava constantemente sua mulher de infidelidade, provocando discussões acaloradas. Ela era infiel e ele estava feliz dela ter sumido.

Algumas das partes dos corpos foram enroladas em uma seção especial do jornal Sunday Graphic, distribuído apenas na região de Lancaster/Morecambe. Já outras partes estavam enroladas em roupas pertencentes aos filhos de Ruxton. Então, um ciclista apareceu: ele foi atropelado por um carro no mesmo dia e anotara o número da placa — ela pertencia ao carro de Ruxton. Outra evidência: o rio transbordara em 19 de setembro, carregando algumas das partes até a margem, assim, os pacotes deviam ter sido descartados antes disso.

A evidência dos insetos era apenas uma peça num mosaico que proclamava a culpa do assassino. Mas o sucesso da combinação de métodos usados no caso levou ao aumento da confiança do público e dos profissionais nas potencialidades da ciência forense. Mesmo se Buck tivesse enrolado as partes despedaçadas de suas vítimas em sacos em vez de utilizar seções do jornal local, mesmo se o carro dele não tivesse colidido com uma bicicleta, as larvas ainda teriam apontado para ele.

Buck Ruxton foi condenado pelo que foi chamado de “Os Assassinatos Quebra-Cabeça”, e foi enforcado na prisão de Strangeways em Manchester; o mais provável é que ele tenha estrangulado sua esposa. A criada morreu depois de ter a garganta cortada, provavelmente para silenciá-la após ela ter descoberto o crime. O caso foi o mais famoso da década de 1930 na Grã-Bretanha, tanto que foi citado por Agatha Christie em seu romance Uma Dose Mortal. A história vendeu milhões de jornais e culminou na morte do carismático, charmoso e querido médico. Buck tinha uma máscara que vestia em sociedade, já dentro de casa, o homem era violento, controlador, abusivo e paranoico. Sua esposa não dava um passo sem a sua permissão e a paranoia de Buck cresceu a um ponto dele acreditar que ela o traía.

O caso é um marco da ciência forense. Além do estudo das larvas para estimar a data da morte, cientistas tiveram a brilhante ideia de sobrepor fotografias das vítimas aos seus crânios. Foi a primeira vez que isso foi feito na tentativa de identificar as vítimas. Foi uma combinação perfeita. Pela primeira vez, também, impressões digitais colhidas na casa de Buck foram comparadas a um dos braços, identificando-o como sendo de Mary. Antes, impressões digitais só eram comparadas com as de arquivos policiais.

ANTROPOLOGIA FORENSE


Quando foram desenvolvidas, técnicas como coleta de impressões digitais e antropologia forense frequentemente eram consideradas como pseudociência e perigosamente duvidosas. Muitas vezes era necessário um caso de repercussão para provar seu valor. Para a ANTROPOLOGIA FORENSE — hoje parte da investigação das cenas de crimes em tudo, desde redes de pedofilia até genocídios — a virada veio através de um caso de assassinato ocorrido em 1897.

Adolph Luetgert emigrou para Chicago, em 1886, vindo da Alemanha aos 21 anos sem um tostão no bolso. Por 15 anos ele fez bicos em curtumes e companhias de remoção até finalmente juntar dinheiro suficiente para construir uma fábrica, montando a AL Luetgert Sausage & Packing Company. As salsichas da fábrica logo estavam sendo distribuídas por toda a cidade e circunvizinhança, garantindo a Luetgert o título de “Rei da Salsicha de Chicago”.

Em 1 de maio de 1897 ele saiu para um passeio com sua esposa, a pequena e atraente Louisa Luetgert. Apesar de uma testemunha ter visto os dois entrando na fábrica de salsichas às 10h30, apenas Adolph voltou para casa. Alertados pela família de Louisa, a polícia logo chegou ao lugar, onde notaram um aroma peculiar vindo de uma enorme tina usada para canalizar salsichas. Examinando a tina, os oficiais notaram sujeira no fundo, e um deles descreveu como tendo um cheiro “nauseante”, “algo morto ali dentro”. No meio do lodo, eles encontraram uma aliança de casamento e outro anel com a gravação “LL”. Dentro de uma fornalha próxima eles encontraram alguns pedaços pequenos do que parecia ser osso e o pedaço de um espartilho queimado.

Enquanto a mídia estava polvorosa e as vendas de salsichas despencavam por todo os Estados Unidos, Luetgert foi levado a julgamento no tribunal do Condado de Cook, no verão do mesmo ano. Um antropólogo — George Dorsey — foi chamado a testemunhar que os ossos encontrados na fornalha eram humanos, incluindo ossos do pé, de dedos da mão, costelas, de dedos do pé e do crânio de uma mulher.

O corpo de Louisa foi dissolvido numa solução cáustica com cerca de 170kg de potássio e os restos cremados na fornalha. Adolph teria escapado do crime horrendo se não fosse o antropólogo forense George Dorsey. O primeiro julgamento em 1897 produziu um júri empatado; os jurados estavam tão longe de um consenso que eles quase foram às vias de fato na sala de deliberação. No ano seguinte, um novo julgamento foi agendado. Dorsey testemunhou novamente e dessa vez Luetgert foi considerado culpado pelo assassinato da esposa e condenado à prisão perpétua. Ele faleceu na cadeia 18 meses depois de ataque cardíaco, aos 53 anos. 

Fora do tribunal, Dorsey enfrentou o ceticismo de outros anatomistas que zombaram da sua “identificação de uma mulher a partir de quatro fragmentos de osso do tamanho de ervilhas” — e abandonou a ciência forense. Mas a cobertura da imprensa colocou a antropologia forense no mapa.

Mais de 100 anos depois, ela é mais do que uma realidade.

TOXICOLOGIA FORENSE


O medo de envenenamento por arsênico no século XIX foi o que levou a TOXICOLOGIA à linha de frente da investigação forense. Os franceses apelidaram seus problemas com arsênico de poudre de succession (pó da herança). Na Inglaterra e no País de Gales, houve 98 julgamentos por envenenamento criminoso entre 1840 e 1850. Apesar de um teste confiável — o teste Marsh — ter sido desenvolvido em 1838, o arsênico ainda era frequentemente usado. Ele é inodoro, praticamente insípido — alguns dizem que ele tem um gosto levemente adocicado — e, no século XIX, de acesso barato em qualquer tipo de loja. O corpo é incapaz de excretá-lo, assim, os elementos metálicos e pesados se acumulam na corrente sanguínea da vítima, simulando a lenta debilitação de uma doença natural. Aqueles que o ingerem sofrem inúmeros sintomas com graus de severidade variável: hipersalivação, dor abdominal, vômitos, diarreia, desidratação e icterícia pode ser resultado de um envenenamento por arsênico, levando frequentemente os médicos a diagnosticarem cólera, disenteria e febre gástrica. Assassinos de arsênico inteligentes preferiam o método crônico de administração em vez do agudo.

O arsênico é um elemento químico que ocorre naturalmente na terra, e em seu estado bruto não é prejudicial. Por produzir um pigmento verde brilhante, os fabricantes do século XIX o usavam em papéis de parede, pinturas, tecidos e vários outros itens. A substância se torna prejudicial apenas quando é convertida em trióxido de arsênico, popularmente conhecido como “arsênico branco”. Mas até mesmo o arsênico branco é benigno em doses baixas. Médicos os prescreviam para asma, tifo, malária, vermes, cólicas menstruais e outros distúrbios. Já as assassinas em série o usavam para outros fins.

Quando um médico legista usou o Teste Marsh nas vísceras de uma criança de sete anos chamada Charles Cotton em 1872, descobriu altas doses de arsênico. Isso colocou um ponto final na carreira de uma das mais sinistras assassinas em série da história. A inglesa Mary Ann Cotton matou por envenenamento cerca de 21 pessoas, incluindo a própria mãe, 3 maridos e 11 filhos pequenos.

Essa Rainha do Arsênico reinou absoluta por mais de uma década, aproveitando-se das péssimas condições de vida da época para matar. Mas sua sorte acabou quando ela topou com um médico suspeito que, armado com a toxicologia forense, a delatou como um dos seres mais medonhos a pisar na face da terra.

Quando tinha 19 anos, Mary Cotton engravidou de um mineiro chamado Willian Mowbray e eles viajaram o país juntos em busca de trabalho. Ela deu à luz cinco crianças durante este tempo, mas quatro delas morreram, os óbitos atestaram causas naturais. Em 1856, o casal se mudou de volta para o norte, onde ela teve mais três filhos. Todos morreram de diarreia. Seu pesar não a impedia de resgatar as indenizações dos seguros de vida que ela havia contratado para cada um deles. Então seu marido machucou o pé num acidente em uma escavação e teve que se recuperar em casa. Logo ele caiu doente e foi diagnosticado com “febre gástrica”; ele morreu em janeiro de 1865. Mary Ann se dirigiu ao escritório da Prudential Insurance Company e recolheu a apólice de 30 libras que ela recentemente o havia convencido a contratar.

Durante os próximos doze anos, Cotton se tornaria a assassina em série mais prolífica da história britânica. Em 1872, ela voltou suas atenções para Richard Quick-Mann, um abastado coletor de tributos alfandegários. Apenas o enteado de sete anos dela, Charles, estava no caminho. Ela tentou entregá-lo a um dos tios dele, mas não conseguiu. Então ela o levou para o abrigo local; o superintendente recusou a entrada dele a menos que Cotton o acompanhasse. Quando todas as outras opções falharam, ela envenenou Charles. O superintendente do abrigo soube da morte dele e procurou a polícia. O médico que havia atendido Charles antes dele morrer realizou uma autópsia e não encontrou indícios de envenenamento. Assim, o legista registrou morte por causas naturais. Mas o médico preservou o estômago e os intestinos de Charles e quando ele os testou novamente descobriu o veneno letal.

Os corpos das vítimas mais recentes de Mary Ann foram exumados e descobriu-se que eles continham altos níveis de arsênico. Sob o peso dessas evidências e do depoimento de outras testemunhas, ela foi condenada por assassinato e sentenciada à morte. A história correu os jornais por meses e uma rima foi cunhada, que começava com “Mary Ann Cotton – she’s dead and she’s rotten” (“Mary Ann Cotton, ela está morta e carcomida”). A imprensa sabia que seus leitores vitorianos eram fascinados pela figura da envenenadora, exalando amabilidade e doçura, oferecendo ao marido uma segunda colherada de açúcar para seu chá e então a tornando letal. Mais de 90% dos assassinos de cônjuge na Grã-Bretanha do século XIX eram homens. Mas os homens eram mais propensos a esfaquear ou estrangular suas esposas; duas vezes mais mulheres do que homens eram julgadas por envenenamento.

Outra letal envenenadora em série é a alemã Gesina Gottfried.

PATOLOGIA FORENSE


Na metade do século XX os CIENTISTAS FORENSES atraíam muito mais atenção, e alguns, à sua maneira, eram quase celebridades. Sir Bernard Spilsbury, um conhecido patologista, era visto com grande simpatia pela polícia e pelos tribunais. O famoso escritor Arthur Conan Doyle, que de alguma forma era cético em relação a Spilsbury, observou a “infalibilidade mais que papal com a qual Sir Bernard é prontamente investido pelos jurados”.

O caso mais famoso de Spilsbury envolveu o Dr. Hawley Crippen, um médico londrino acusado de envenenar a esposa Cora e enterrar o tronco dela no porão de sua casa. Seus métodos não convencionais também foram vitais em outro extraordinário caso, o qual nem mesmo testes de DNA ou qualquer outra técnica forense moderna poderiam tê-lo ajudado a resolver.

Em 3 de janeiro de 1915, Charles Burnham, um agricultor de Buckinghamshire, sentou-se com uma xícara de chá e abriu seu exemplar do News of the World. Na página três, ele encontrou a manchete “Morta na Banheira: O Destino Trágico de Uma Noiva no Dia Seguinte ao Casamento” e uma pequena reportagem explicando que uma tal Margaret Lloyd havia sido encontrada morta no apartamento dela no norte de Londres. A filha de Charles, Alice, também morreu no banho, pouco depois do casamento dela, quase um ano antes. Burnham contatou a polícia e descobriu que o marido de Margaret Lloyd era George Joseph Smith, o mesmo que anteriormente casara com sua filha Alice. Coincidência?

A polícia convocou Spilsbury para realizar uma autópsia no cadáver exumado de Margaret. Em seguida, ele viajou até Blackpool para examinar o de Alice. Logo, a polícia descobriu detalhes de uma terceira mulher, Bessie Mundy, que casara com George Smith e morrera em casa, em circunstâncias similares, no ano de 1912 em Kent. Quando a polícia investigou outra vez, descobriu que Smith se beneficiou financeiramente da morte de todas as suas esposas, sendo a maior quantia de Mundy, que lhe deixara £2.500 libras em testamento (aproximadamente £190 mil libras nos dias de hoje). Um padrão começava a surgir e a polícia prendeu Smith.

Nos corpos de Margaret e Alice, Spilsbury não conseguiu encontrar nenhum indício de violência, envenenamento ou ataque cardíaco, apesar de o clínico geral, o primeiro a examinar o corpo de Bessie, ter notado que ela apertava uma barra de sabão. Spilsbury, então, fez com que todas as três banheiras fossem levadas à delegacia de polícia de Kentish Town, onde as alinhou juntas e examinou-as minuciosamente. Ele estava particularmente intrigado pelo caso de Bessie Mundy. Pouco antes da morte dela, Smith a levara a um médico para uma consulta sobre sintomas de epilepsia. Smith disse ao médico que ela sofria ataques, mesmo ela não conseguindo se lembrar de nenhum deles e não tivesse casos de epilepsia na família. Bessie tinha cerca de 1,70m de altura e era obesa. A banheira onde ela morreu media apenas 1,50m de comprimento e era inclinada do lado da cabeça. Spilsbury sabia que a primeira fase de um ataque epilético causa completa rigidez corporal e que, devido ao tamanho dela e ao formato da banheira, um ataque desses deveria manter a cabeça de Bessie acima do nível da água em vez de levá-la para o fundo.

Spilsbury pesquisou mais e descobriu que uma invasão súbita de água pelo nariz e garganta pode inibir um nervo craniano vital, o nervo vago, e causar perda repentina da consciência, rapidamente seguida por morte. Um resultado subsidiário comum é rigor mortis instantâneo — o que Spilsbury acreditava explicar a barra de sabão apertada na mão de Bessie. Munido dessa informação, o oficial investigador, Inspetor Detetive Neil, decidiu conduzir uma série de experimentos antes do julgamento. A primeira voluntária entrou numa banheira cheia, vestida com roupas de banho, e conseguiu agarrar as laterais da banheira e fazer força quando Spilsbury a empurrou para baixo. As mulheres brigavam quando os homens a tentavam afogar, e eles paravam imediatamente, percebendo que o instinto de reação fazia cair por terra suas teorias. Mas quando Neil agarrou os tornozelos de uma delas e abruptamente puxou suas pernas para cima, a mulher deslizou para baixo d’água e perdeu a consciência. Foram precisos vários minutos para Spilsbury fazê-la recobrar os sentidos; ela teve sorte em sobreviver. Mas a polícia tinha sua resposta.

Smith, um predador vigarista com uma queda por anéis de ouro e gravatas borboleta coloridas e brilhantes, foi julgado pelo assassinato de Bessie. No julgamento, Spilsbury falou com grande autoridade sobre como o réu matava suas esposas puxando-as abruptamente pelos tornozelos enquanto tomavam banho. O júri deliberou por 20 minutos antes de condenar Smith.

O interesse público nos “Assassinatos de Noivas na Banheira” foi intenso. Spilsbury já era uma celebridade antes deste caso, sendo, inclusive, citado pelo mago da literatura Arthur Conan Doyle como um tipo de mágico que enfeitiçava os jurados. Dezenas de jornalistas, sedentos pela manchete “cientista derrota assassino de mulheres”, bateram na porta de Spilsbury enquanto ele investigava o assassino em série. Sem dúvidas, Spilsbury foi um dos maiores cientistas forenses do século XX e o primeiro a se tornar uma celebridade. Pelo seu trabalho recebeu o título de Sir.

CIÊNCIA FORENSE DIGITAL


Os maiores saltos na ciência forense nos anos recentes têm sido DIGITAIS. Um caso que foi desdobrado com base em tal evidência foi o assassinato de Suzanne Pilley, que foi vista [pela última vez] indo para o seu trabalho de contadora em uma companhia de serviços financeiros no centro de Edimburgo, Escócia. As suspeitas recaíram rapidamente sobre David Gilroy, um colega de trabalho de Suzanne com quem ela recentemente havia terminado um romance. A polícia interrogou Gilroy e notou um corte na testa dele, hematomas sutis no peito e arranhões curvos em suas mãos, pulsos e antebraços. Gilroy disse que ele arranhou a si mesmo enquanto praticava jardinagem. Mais tarde, o patologista forense Nathaniel Cary examinaria as fotos destes ferimentos e testemunharia que eles poderiam ter sido feitos pelas unhas de outra pessoa, possivelmente numa luta.

A polícia apreendeu o celular e o carro de Gilroy, e cães farejadores, especialmente treinados para encontrar cadáveres, detectaram vestígios de sangue humano na mala e no assoalho, apesar de claramente ter havido uma tentativa de limpar o carro. A polícia também encontrou vegetação sob o carro e uma suspensão danificada. Aquilo era suspeito, mas eles precisavam de mais para montar um caso. Um perito em análise digital foi chamado para trabalhar no telefone de Gilroy. Quando você desliga seu telefone, ele mantém um registro da última torre de transmissão à qual estava conectado, de modo que o telefone possa encontrá-la rapidamente quando você for usá-lo novamente. No dia em que os investigadores acreditavam que ele havia descartado o corpo de Suzanne, Gilroy desligou seu telefone enquanto viajava entre Stirling e Inveraray. A polícia suspeitou que ele fez isso para evitar ser rastreado enquanto procurava por um bom local para se livrar do corpo de Suzanne na densa mata. No caminho de volta, Gilroy novamente desligou seu celular entre Stirling e Inveraray. Ali, acreditava a polícia, era onde ele abandonou o corpo.

O corpo de Suzanne jamais foi encontrado. No entanto, em março de 2012, em uma decisão controversa, Gilroy foi condenado por homicídio e obstrução da justiça. É raro que assassinos sejam condenados sem a presença do corpo da vítima. No caso de Gilroy não havia DNA e os arranhões em seu braço não diziam nada. Ele foi condenado por causa de um registro incomum no seu celular, vídeos de circuito interno e imagens de câmeras rodoviárias.

Câmeras de videovigilância, registros de telefones celulares, e-mails, navegação na Internet, recibos de compras — nossa rotina diária deixa sempre para trás uma “impressão eletrônica”. No passado, nada poderia condenar David Gilroy, mas ele foi, e graças à Ciência Forense Digital. A extraordinária investigação policial usou todo e qualquer meio digital existente para rastrear seus movimentos e sua vida nos mínimos detalhes. Ele enviava cerca de 50 mensagens diárias no WhatsApp para Suzanne, entre texto e voz, desesperado em reatar, mas parou um dia antes do desaparecimento. Ele e ela foram flagrados em seus movimentos por toda cidade de Edimburgo, segundo a segundo. Suzanne entrou no prédio onde trabalhava, mas nunca saiu. Lá, no estacionamento do subsolo, a polícia acredita que ela foi assassinada por David, que a colocou no porta-malas do carro. Cães farejadores de sangue ficaram agitados em um espaço específico do subsolo e no porta-malas do carro, mas nenhum vestígio foi encontrado pela perícia. David foi flagrado comprando desodorizadores, então arranjou uma viagem de trabalho de última hora. A rota flagrada por câmeras foi estranha (a viagem leva 36 minutos, mas Gilroy a fez em 5 horas) e ele desligou o celular duas vezes numa área entre Stirling e Inveraray.

Devido ao acúmulo de evidências digitais contra ele, David Gilroy recebeu a perpétua em 2012.

GENEALOGIA GENÉTICA


Nada é mais sensacional hoje na Ciência Forense do que a GENEALOGIA GENÉTICA. Temos publicado histórias sobre a tecnologia e até um podcast, mostrando como ela vem identificando vítimas até então desconhecidas de assassinos em série e, principalmente, identificando estupradores, assassinos e serial killers que acreditavam ter escapado das mãos da justiça, para sempre.

A história da ciência forense nos mostra que sempre foi preciso de um caso notório para seus campos de aplicação provarem o seu valor e, no caso da genealogia genética, esse caso atende pelo nome de:

O ASSASSINO DO ESTADO DOURADO (GSK)


Durante décadas, um serial killer que matou 13 pessoas foi um dos maiores mistérios criminais do mundo. GSK aterrorizou a Califórnia com uma série de estupros e assassinatos, então, de repente, parou. Este maníaco estaria no rol dos serial killers nunca identificados (como o Zodíaco) se não fosse a genealogia genética.

A técnica de genealogia genética se baseia num princípio simples: se você voltar o suficiente no passado, todo o mundo tem algum grau de parentesco e, portanto, milhares de parentes. Se um especialista em genealogia puder encontrar um primo de qualquer grau de um suspeito desconhecido que deixou o seu DNA para trás na cena de um crime, então esse especialista pode construir a conhecida árvore genealógica, aquela mesma que todo mundo um dia fez na escola, e assim rastrear o criminoso.

O motor dessa técnica é o GED Match, um site que pode ser usado por qualquer pessoa para fazer o upload do seu DNA. O site faz comparações entre as amostras e foi criado com objetivo de ajudar pessoas a encontrarem parentes distantes. Quando o DNA do GSK foi colocado no GED Match, o site identificou inúmeras pessoas que tinham os mesmos antepassados, algumas do século XIX, ou seja, essas pessoas eram parentes distantes de GSK. Uma equipe de especialistas em genealogia, então, construiu 25 gigantescas árvores genealógicas.

Uma delas continha cerca de mil pessoas. Os investigadores foram eliminando uma a uma até chegar a um nome: Joseph James DeAngelo, de 74 anos.

Após 44 anos de seu primeiro crime, o Assassino do Estado Dourado tinha um nome.

Quando os genealogistas apontaram para Joseph DeAngelo, policiais disfarçados coletaram duas amostras de seu DNA — uma retirada da porta do seu carro e outra do seu lixo. As duas amostras bateram perfeitamente com as amostras coletadas nas cenas dos crimes (cometidos entre 1974 e 1986) e que foram colocadas meses antes no GED Match. DeAngelo, 74 anos na época, morava com a filha e uma neta, e sua família ficou chocada com a descoberta. Ele teve três filhas com a esposa enquanto estuprava e matava mulheres pela Califórnia. Sob interrogatório, disse que não podia se controlar e que uma entidade chamada Jerry ficava em sua cabeça, “ele é uma parte de mim. Eu não queria fazer aquelas coisas. Eu destruí todas aquelas vidas e agora tenho que pagar o preço,” disse.

Em 21 de agosto de 2020, DeAngelo foi condenado a múltiplas penas de prisão perpétua sem possibilidade de condicional. Ele se desculpou pelas famílias das vítimas e agradeceu ao juiz.

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Por:


Daniel Cruz
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