Relatório Anual Estatístico Sobre Assassinos em Série | 2026

O leitor provavelmente conhece as histórias aterrorizantes de assassinos em série do passado. Ted Bundy, Andrei Chikatilo, John Gacy, Jeffrey Dahmer — no passado, eles eram onipresentes e existiam...

O leitor provavelmente conhece as histórias aterrorizantes de assassinos em série do passado. Ted Bundy, Andrei Chikatilo, John Gacy, Jeffrey Dahmer — no passado, eles eram onipresentes e existiam em todos os cantos do mundo. Mas, hoje, um assassino em série está mais para um personagem de série policial do que para uma ameaça real. O que aconteceu? Por que não temos atualmente o mesmo número de homicidas seriais de décadas atrás? Onde estão os Bundys e Dahmers deste século? Acadêmicos tem os seus palpites a partir da exploração do maior banco de dados de assassinos em série do mundo.

Universidade Radford


Na década de 1990, o professor de psicologia forense Michael Aamodt começou a dar aos seus alunos uma tarefa incomum: compilar o perfil detalhado de um determinado assassino em série. A tarefa exigia a elaboração de uma cronologia dos crimes, biografias, dados demográficos e detalhes de cada caso. Inicialmente, os trabalhos eram simplesmente arquivados em uma gaveta. Posteriormente, com a evolução da Internet, foram digitalizados e publicados no site do curso. Mais tempo se passou e os perfis acabaram modelados e inseridos em um banco de dados completo, cuja última atualização é de 2016 — no total, o banco de dados conta com os registros de mais de seis mil assassinos em série.

Apesar dos assassinos em série não serem mais o foco de suas pesquisas, o professor Aamodt publica, anualmente, um relatório estatístico sobre este tipo homicida que, apesar de raro, fascina toda a sociedade.

As Estatísticas


Os pesquisadores usam a definição do FBI de assassino em série como alguém que tira a vida de duas ou mais pessoas em incidentes separados, com o homicida vivendo o período de “resfriamento emocional” entre os crimes. Apesar do banco de dados usar o termo histórico serial killer, Aamodt e seus colaboradores escrevem que o termo mais adequado aos mais de seis mil homicidas catalogados seria assassino de evento-múltiplo. O banco de dados inclui assassinos de todo o mundo e revela padrões interessantes.

Desde o início do século XIX, 3.803 assassinos em série foram registrados nos Estados Unidos, um número que representa 63% de todos os serial killers do mundo. O dado é assustador dado que a população estadunidense corresponde a apenas 4,35% da população mundial.

O top 10 de países do globo com o maior número de assassinos em série catalogados são:

  1. Estados Unidos: 3.803
  2. Inglaterra: 188
  3. Rússia: 172
  4. Austrália: 153
  5. Japão: 145
  6. Índia: 135
  7. África do Sul: 132
  8. Canadá: 130
  9. Alemanha: 105
  10. Itália: 102

No oposto, os cinco países com o menor número de assassinos em série são:

  1. Nova Zelândia: 9
  2. Suíça: 10
  3. Finlândia: 10
  4. Irlanda: 10
  5. Coréia do Sul: 11

O Brasil aparece no banco de dados da Universidade Radford com 46 assassinos em série catalogados. É importante observar que tais números são subnotificados, pois, [1] existem assassinos em série que nunca foram identificados e [2] casos ocorridos fora dos EUA são mais difíceis de detecção pelos pesquisadores.

Aproximadamente 11% dos assassinos em série são mulheres. No entanto, essa proporção variou significativamente: antes da década de 1930, as mulheres representavam cerca de um terço de todos os assassinos em série. Após 1980, esse número caiu para cerca de 6%.

Mulheres serial killers usam veneno com mais frequência e cometem homicídios por ganho financeiro. Suas vítimas são, na maioria das vezes, membros da família — mulheres matam muito mais crianças, por exemplo, do que os homens. Homenes serial killers, por outro lado, matam por prazer, usando armas de fogo ou estrangulamento, e escolhendo vítimas desconhecidas.

Eles estão diminuindo


Nos Estados Unidos, o ano de 1987 foi o auge absoluto no número de assassinos em série ativos no país. Naquela década, houve uma média de 173 serial killers identificados por ano. Este número, porém, vem caindo drasticamente, década após década, atingindo o seu menor patamar (53/ano) no período 2010-19. Ao longo de três décadas, o número de assassinos em série nos Estados Unidos diminuiu quase quatro vezes.

Aamodt e seus colegas listam no relatório alguns possíveis fatores para este declínio.

O primeiro é a melhoria na aplicação da lei. Os avanços na ciência forense, incluindo a análise de DNA e a vigilância digital, possibilitam a identificação de criminosos em um estágio inicial. Por exemplo, assassinos em série motivados por dinheiro (como viúvas negras) são identificados mais rapidamente, muitas vezes antes de acumularem vítimas suficientes para serem considerados assassinos em série — no caso dos EUA, as viúvas negras são um tipo praticamente em extinção.

O segundo fator é a punição mais severa. De acordo com o relatório, 80% dos assassinos em série nos Estados Unidos cumpriram algum tempo na prisão antes de cometerem o seu primeiro homicídio. E 17,4% deles, desde 1950, cometeram homicídios ou novos homicídios após serem, novamente, libertados. Condições de liberdade condicional mais rigorosas, como observam os autores, simplesmente impedem que assassinos em série voltem às ruas e façam mais vítimas.

O terceiro fator inclui mudanças de comportamento. O declínio de pedir carona e a prática de ir a pé para a escola, por exemplo, privaram os assassinos em série de um número significativo de vítimas.

Entre as categorias de vítimas que apresentaram o declínio mais acentuado entre 1980-2019 estão os caroneiros, vítimas de sequestros em shoppings, motoristas de carros avariados e os “bons samaritanos” — pessoas que paravam para ajudar estranhos em estradas. O estilo de vida moderno — com navegação por GPS, telefones celulares, câmeras de segurança e aplicativos de transporte — tornaram as pessoas menos vulneráveis ​​a ataques aleatórios. A sociedade, também, aprendeu com a violência e passou a confiar menos em estranhos.

Como toda pesquisa, o relatório possui gargalos. No entanto, essa tendência parece consistente e é confirmada por diversas fontes. As mudanças sociais e tecnológicas dos últimos quarenta anos criaram um ambiente no qual é muito mais difícil para assassinos em série permanecerem indetectados e encontrarem vítimas. Isso não significa que o problema tenha desaparecido, mas a escala do fenômeno certamente mudou. Enquanto a década de 1980 já foi associada à era de ouro do rock e dos videogames, agora podemos associá-la a algo completamente diferente e sombria.

Resumo do relatório em imagens


O relatório anual estatístico sobre assassinos em série do professor Michael Aamodt pode ser acessado neste link.

Por:


Daniel Cruz
Texto

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
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